quinta-feira, janeiro 23, 2014

Co-adopção: resposta a Fabíola Cardoso in PUBLICO, 23/01/2014

Cara Fabíola,
Antes de mais deixe-me dizer-lhe o quanto lamento a sua doença. Não consigo imaginar a dor pela qual a Fabíola e a sua família passaram e provavelmente estão a passar e espero que consiga vencer esta dura batalha.

Para além disso quero desde já garantir que respeito totalmente as suas decisões sobre a sua vida privada. A maneira como a Fabíola vive e educa os seus filhos não me diz de todo respeito. Não tenho dúvida alguma de que a Fabíola faz o que na sua opinião é melhor para os seus filhos. E como mãe essa responsabilidade é sua e a maneira como a exerce não me diz respeito.

Contudo, com a carta que escreveu aos deputados, a Fabíola tornou a educação dos seus filhos num exemplo para pedir a aprovação do projecto sobre a co-adopção que está a ser discutido no Parlamento.
Ora a Fabíola tem todo o direito às suas convicções. Também tem o direito de educar os seus filhos de acordo com elas. Não pode é querer impor aquilo em que acredita ao resto do país.

Pode acreditar que as crianças não precisam de um pai e de uma mãe. Pode acreditar que é igual ter duas mães ou ter pai e mãe. Não pode é obrigar todos os portugueses a acreditar no mesmo. Como mãe tem o direito e o dever de educar os seus filhos da maneira que lhe parece melhor, não tem é o direito de educar os filhos dos outros.

Pai e mãe não são iguais, porque homem e mulher não são iguais. Têm os mesmos direitos e a mesma dignidade, mas são diferentes. E essa complementaridade é importante para a educação de uma criança.
Existem muitos casos onde não é possível a uma criança ter pai e mãe. E em muitos desses casos as pessoas responsáveis pela educação dessas crianças fazem um trabalho extraordinário que lhes permite ter uma vida absolutamente normal.

Contudo já basta quando são as próprias circunstâncias a ditar que uma criança não tenha pai ou não tenha mãe. Não é preciso que o Estado decida agora que algumas crianças podem ser obrigadas a não ter pai ou mãe caso um dos progenitores assim decida.

Acredite Fabíola que eu tenho o maior respeito por si, pelas suas decisões e pelas dificuldades com que lida. Contudo não me parece que essas dificuldades devam ter como resultado impor a todos os portugueses a sua ideologia.

Por isso a Fabíola vai ter de me desculpar. O seu desabafo é legítimo e o seu lamento compreensível, mas espero que o seu pedido não seja ouvido. Porque por muito respeito que tenha pela sua circunstância, nem a Fabíola, nem o Parlamento, nem o Estado têm legitimidade para retirar a uma criança o seu direito a um pai e uma mãe.

Com os desejos sinceros que tudo lhe corra bem,

José Maria Seabra Duque

5 comentários:

Rita Andrade disse...

Não leio este blog, não o conhecia antes deste post e, embora educada como cristã, não sou praticante. Mas depois de ler este texto, achei que devia dizer alguma coisa porque parece-me que só está a ver um lado da questão: o seu.
Ninguém aqui quer impor nada a ninguém. O que se pretende é dar a opção, porque na realidade o que acontece é que o que está imposto é a sua ideologia de que um casal homossexual não é capaz de providenciar uma educação completa a uma criança.
Uma criança precisa de amor. Se esse amor vem de dois pais ou duas mãe, que interessa? Explique-me em que é diferente a educação de uma criança criada por pais homossexuais?
Não é o Homem e a Mulher que são diferentes, somos todos nós. Eu sou muito diferente da minha mãe, do meu pai, do meu irmão, de si e da pessoa que vai ao meu lado no autocarro, independentemente de ser mulher ou homem. Acho um disparate dizer que a diferença está no género. A diferença está em cada um de nós e com certeza não será por uma criança ser educada por duas pessoas do mesmo sexo, mas que obviamente são diferentes tal como um casal heterossexual seria, que vai ser mais ou menos feliz.
Se prefere privar uma criança do amor de dois pais apenas porque tem uma convicção obsoleta, então devo dizer que lamento muito essa escolha.

Por muito respeito que possa ter pela sua opinião, nem você, nem o Parlamento, nem o Estado têm a legitimidade de retirar a uma criança o seu direito a ter dois pais que lhe dão amor e tudo o que precisa para ser feliz, independentemente da sua escolha sexual que, honestamente, nem a mim nem a si deveria interessar.

Zé Maria Duque disse...

Rita,

a questão não tem a ver com a orinetação sexual. Isso de facto não me diz respeito.

O ponto é que Homem e Mulher são, não apenas diferentes, mas complementares. Isto é verdade quer a um nível meramente biológico (de tal maneira que é preciso essa complementariedade para gerar vida) mas também ao nível psicológico. Homens e mulheres tem caracteristicas diferentes.

Esta diferença não nasce de uma crença obsoleta, mas da natureza.

Por isso afirmar que uma criança precisa e tem direito a pai e mãe não é uma teoria, é um facto que nasce da observação.

Quer afirmar o contrário é que um crença ideológica. Crença essa que os defensores desta lei querem impor a todos.

Ora cada é liver de acreditar no que quiser. Não podem é obrigar todo o país a acreditar no mesmo. Especialmente com um argumentos que: a) não tem nenhuma fundamentação (dizer que não há diferença entre os sexos; b) são meramente sentimentais (crença obsoleta).

Rita Andrade disse...

Agradeço a resposta mas creio que vamos ter que concordar em ficar em desacordo.
Diz que o Homem e a Mulher têm características diferentes, não há como negar: fisica e biologicamente têm. Se isso interessa para o crescimento de uma criança, aí devo dizer que não, porque não é a biologia de cada um que educa, é a pessoa individual que o faz que, sendo cristão como é, deve concordar comigo que é mais que o corpo onde nascemos. E se o corpo influencia aquilo que somos, creio que é mais a forma como a sociedade o vê que o faz. E a forma como cada um lida com isso difere entre todo o ser humano, homem ou mulher.
Que a sua crença é obsoleta é, obviamente, uma opinião minha. Para mim não faz sentido pensar que uma criança não vai ser feliz por ter duas mães ou pais. É uma opinião que se baseia, claro, em sentimentos (fiz voluntariado em algumas casas de acolhimento de crianças e isso faz com que tenha uma opinião mais sensível), mas também em factos: existem crianças e adultos que foram criados por casais homossexuais e nada de horrível lhes aconteceu.
Não sei se pensou, por eu defender esta causa, que sou homossexual, não o sou, mas sou uma pessoa que não hesitaria em adotar caso tivesse essa possibilidade mais tarde na vida e custa-me a acreditar que me pudesse ser negado se a minha escolha de parceiro fosse outra. Sou uma pessoa que conhece casais homossexuais cuja capacidade de amar e educar uma criança é igual à minha (ou talvez maior até) e bem mais elevada do que muitos casais heterossexuais que conheço. Mas isso não interessa, as pessoas são como são e o que interessa é o bem estar da criança e isso, meu caro, devo dizer que seria muito mais valorizado num lar com pais que a amam, mesmo sendo um casal do mesmo sexo, do que numa instituição onde são mais uma criança no meio de muitas (não querendo menosprezar o trabalho das instituições, mas que simplesmente não se equiparam a uma família).

PS: Bem sei que o tema é a co-adoção e não a adoção, no entanto acho que o primeiro tema levanta, inevitavelmente, o segundo que é bem mais importante discutir.

Miguel Cary disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Zé Maria Duque disse...

Miguel,

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