sexta-feira, janeiro 07, 2011

Catolicismo e Revolução Francesa - Padre João Seabra

A tomada da Bastilha está a ser comemorada em França com um convénio sobre “Imagens da Revolução”, que suponho proporá as do costume: a Revolução como triunfo da razão sobre o obscurantismo, e como triunfo da liberdade sobre a opressão. Quem propõe imagens não está, normalmente, interessado nos factos: quer manter funcionais os mitos e os símbolos do imaginário colectivo. Ora eu proponho-me escrever sobre factos. Alguns, claro: não falo de muitos outros, também importantes. Mas aqueles de que falo são factos reais, e sem os conhecer não se compreende a Revolução Francesa.


Igreja e Revolução; ideias comuns, factos reais

As simplificações dos manuais escolares e da cultura mediática são conhecidas: a Igreja era aliada do Antigo Regime e identificava-se com ele; opôs-se à Revolução e combateu os novos ideais; só tardiamente se juntou à causa da democracia e da liberdade, reconhecendo na trilogia “Igualdade, Liberdade, Fraternidade” uma reformulação actualizada do Evangelho. O Dr. Raul Rego e monsenhor Lefebvre estão de acordo em afirmar que, no Vaticano II, a Igreja aderiu à Revolução Francesa, embora esse facto os impressione de maneira diversa.

Observados de perto, porém, os factos adaptam-se mal às generalizações. Os “Cahiers de Doléances”, cujo estudo é fundamental para conhecer o estado de espírito e as reivindicações populares que serviram de base às transformações sociais subsequentes, não contêm elementos de luta anti-religiosa. O clero apoiou de maneira larga as reclamações do Terceiro Estado e, nos primeiros tempos da Revolução, inseriu-se na onda patriótica, benzendo as bandeiras da Guarda Nacional. Mesmo o “pôr à disposição da Nação” dos bens eclesiásticos, com a abolição dos direitos feudais a quatro de Agosto de 1789, não foi vivido como um momento de luta anti-religiosa: a Assembleia legislou imediatamente sobre a manutenção do clero. E a primeira festa da Revolução, 14 de Julho de 1790, foi uma missa campal, concelebrada no Campo de Marte, diante dos representantes dos departamentos, por trezentos sacerdotes, entre os quais o pároco de Saint-Sulpice, Monsieur de Paucemont, que será dentro em breve o chefe dos “refractários”. Claro que há divisões no clero – mas são políticas, e assumidas como tal. Um ano depois da tomada da Bastilha, não há nenhuma frente séria de conflito entre a Igreja e a Assembleia.


Constituição Civil, Igreja nacional, perseguição religiosa

Mas dois dias antes, a 12 de Julho de 1790, fora publicada a Constituição Civil do Clero: ora esta é uma lei anticatólica, de galicanismo extremo. O Papa não é sequer mencionado: a Igreja é definida legislativamente como uma igreja nacional, inteiramente submetida ao poder do Estado. Todos os bispos e padres a têm de jurar, sem o que ficam impedidos de exercer o ministério.
É assim que começa a luta da Revolução contra a Igreja. Esta luta não corresponde a nenhum movimento popular nem a nenhuma necessidade política. Corresponde à vitória de um grupo influente de clérigos anti-romanos, jansenistas e galicanos, que se apoiam no jacobinismo mais radicalmente anticristão para fazerem o que julgam ser uma reforma da Igreja: porque em todas as épocas se encontra sempre uma vanguarda da Igreja disposta a ser a retaguarda da História.

A fidelidade ao Papa, do clero e dos fiéis, que os legisladores não esperavam, criou uma crise de dimensões profundíssimas, cuja influência no futuro da Revolução, até ao bonapartismo e, finalmente, à restauração, foi imensa. Em Março de 1791 o Papa proibiu o juramento da Constituição Civil, pelo breve Quod Aliquantum. Só quatro bispos a aceitaram e, talvez, metade dos padres, embora muitos se retractassem depois da proibição papal. Os “ajuramentados” são maioritariamente rejeitados pelos fiéis; mas os “refractários”, que recusam jurar a lei, não podem exercer o culto e ficam vagas oitenta dioceses, mais de 20.000 paróquias. O clero refractário é sucessivamente destituído, condenado à deportação pela Assembleia Legislativa a 26 de Agosto de 1792, e à morte pela Convenção a 18 de Março de 1793. Entre 30.000 a 40.000 padres abandonam a França, quase 3.000 são guilhotinados. Os massacres de Setembro de 1792 fazem centenas de vítimas entre sacerdotes e religiosos.

A luta religiosa radicaliza a Revolução. Apenas um exemplo: a fuga de Luís XVI, terminada em Varennes, levando ao processo e morte do rei, dividiu irremediavelmente a França em dois blocos inconciliáveis; mas parece ter-se por documentalmente assente que a razão determinante da fuga do rei foi o terem-no obrigado, em Abril de 1791, a receber a comunhão pascal de um padre ajuramentado, pois o rei estava disposto a abdicar do poder absoluto mas não a viver contra a sua fé.


O genocídio franco-francês

Em 1793 começa a guerra da Vendeia. A chouannerie, antes que monárquica é católica, como diz um camponês angevino ao juiz Clémenceau: “Je ne demandons point de roi. Mais je voulons nos bons prêtres”. É a recusa das consciências de aderir à religião do Estado, o direito de prestar culto a Deus de acordo com as próprias convicções que os chouans defendem. Para os vencer, é preciso “incendiar tudo”, como diz Tourreau, general-chefe do Exército do Oeste, em carta ao Comité de Salut Publique de 17 de Janeiro de 1794. E a 11 de Fevereiro o comité dá a ordem: “Écrasez totalement cette horrible Vendée”. É a hora das Colunas Infernais, que recebem do general Grignon a proclamação demencial: “Entregar às chamas tudo o que puder ser queimado, e passar ao fio da baioneta todos os habitantes. Bem sei que pode haver alguns patriotas nesta região: é igual, devemos sacrificar tudo”.

O “carniceiro de Vendeia”, Westermann, escreve a 23 de Dezembro de 1793: “Fizemos uma carnificina (boucherie) horrível. Já não há Vendeia: exterminei tudo. Deixámos de fazer prisioneiros: a piedade não é revolucionária”.

Não se trata dos excessos habituais da soldadesca. É a minuciosa execução, se ouso dizer a palavra, dos decretos da Convenção de 1 de Agosto e de 14 de Outubro de 1793: “Enviar um exército incendiário, de modo a que nenhum homem nem nenhum animal possa subsistir sobre esse solo”. Do horrível massacre, que dura quase um ano, recordemos apenas uma data: 28 de Fevereiro de 1794, quando na Igreja des Lucs os exércitos da Convenção chacinaram até à última 110 crianças com menos de oito anos de idade.


A revolução contra o catolicismo

Daí em diante, até ao fim do século, a Revolução fará do catolicismo fiel ao Papa o seu inimigo principal. Até Roma levarão a guerra os exércitos franceses. Pio VI morre desterrado e prisioneiro de França. A concordata que um humilhado e heróico Pio VII celebrará, e a que Napoleão juntará os “Artigos Orgânicos”, colocará a Igreja francesa numa sujeição ao Estado de que levará um século a libertar-se. O esforço por criar, primeiro uma Igreja nacional, depois uma religião laica, com o culto do Ser Supremo e da Deusa Razão, ocupará grande parte das energias da Convenção, dos furores de Fouquier-Tinville, e a lâmina da guilhotina.


Revolução francesa e liberal

Até aqui, os factos de que prometi falar: documentos, nomes, datas – maçadas que todos deviam saber, se a História consistisse humildemente em contar o que sabemos do passado, em vez de ser, como normalmente é, inventar uma genealogia às opções do historiador que a escreve ou do imperador que a estipendia.

Mas depois de contar os factos, vou ousar também três comentários – para que ao menos a mim interesse alguma coisa do que escrevo...

Primeiro. A Revolução estabeleceu legislativamente uma Igreja nacional. Ora isto nada tem a ver com a liberdade: reencontramos essa tentativa no Kulturkampf, de Bismark, no cristianismo alemão de Hitler, na Igreja patriótica de Mao-Tsé-Tung, na Igreja popular dos sandinistas. Ao bater-se contra esta prepotência, a Igreja Católica bate-se pela liberdade de consciência, pelo direito de qualquer homem prestar culto a Deus segundo as suas convicções. A Revolução Francesa, com a Constituição Civil do Clero, estabeleceu-se como a raiz de todos os totalitarismos modernos.

Segundo. A guerra de Vendeia é o primeiro exemplo de guerra total que conhecemos, pelo menos desde que Dario derrotou o império assírio. Os campos de extermínio nazis, a destruição dos arménios, o genocídio do Camboja, são herdeiros das instruções da Convenção ao Exército do Oeste. Porque Pol Pot não é um sátrapa oriental, como gostamos de pensar: é um ideólogo que fez o Maio de 68 em Paris como jovem estudante e aprendeu o desrespeito da pessoa humana na escola onde ele melhor se ensina: na descristianização da cultura ocidental. A Revolução Francesa, com a Guerra da Vendeia, estabeleceu-se como modelo de todos os genocídios contemporâneos.

Terceiro. A Declaração Universal dos Direitos do Homem, a Declaração sobre a Liberdade Religiosa Dignitatis Humanae do Concílio Vaticano II, os Pactos Internacionais de Direitos Humanos, a Acta Final de Helsínquia, devem mais ao breve Quod Aliquantum de Pio VI, ao clero refractário, aos camponeses humildes da Vendeia e a Monsieur de Charette, do que à Revolução Francesa. O que a Revolução quis foi sacralizar o Estado, e para isso tentou destruir o cristianismo. A defesa da integridade do catolicismo representou, então como sempre, a fronteira da dignidade da pessoa humana.

E termino. Nos dez anos que vão de 1792 à Concordata de 1802, a Igreja Católica foi privada de todos os seus bens, de estatuto jurídico, da possibilidade de expressão pública, de qualquer forma visível de organização; viu destruídos centros de irradiação intelectual e espiritual, dispersas ou queimadas bibliotecas e acervos culturais seculares, profanados templos e conventos. Perdeu tudo. Mas ganhou aquilo com que se constrói, desde o princípio: mártires, milhares de mártires. Não é o menor dos grandes serviços prestados à causa da liberdade pelo Papa João Paulo II o ter ousado, contra os diktats da cultura dominante, mandar reabrir os processos de canonização dos mártires da fé que fez a Revolução Francesa.

Artigo publicado n’O Independente, 14 de Julho de 1989

3 comentários:

Ana Teresa Faria disse...

Brilhante! Como sempre aliás... Mas ainda bem que alguém ainda se dá ao trabalho de escrever sobre alguns factos verdadeiros...

papinto disse...

Fantástico.
Obrigado, Zé Maria. Tomei a liberdade de o "transportar" para o Povo, juntando-lhe alguns links pedagógicos.
http://o-povo.blogspot.com/1989/07/catolicismo-e-revolucao-francesa.html

papinto disse...

A data de publicação no fim do artigo está errada. O mês é Julho e não Junho