quinta-feira, outubro 04, 2012

5 de Outubro - "Que um fraco rei faz fraca a forte gente".



Amanhã celebra-se o 5 de Outubro de 1910. De há uns anos a esta parte virou moda por parte de alguns monárquicos converter este feriado num festejo do tratado de Zamora, celebrado no mesmo dia do ano de 1143.
Peço desculpa pela agressividade, mas é uma tontaria. O dia 5 de Outubro assinala um dos dias mais vergonhosos da nossa história. Um dia de cobardia e de traição. Nenhum festejo de uma data discutível para a fundação da nacionalidade pode, ou deve, branquear esse facto.
Porque no 5 Outubro, o da rotunda e dos Paços do Concelho, quase não houve heróis, só uma corja cobarde a revoltar-se contra outra corja igualmente cobarde. Do lado republicano todos se acobardaram excepto António Machado Santos e José Carlos da Maia. Do lado monárquico todos ficaram sentados, achando que a única mudança seria a de tirar o Rei e pôr lá um presidente.
Nesse dia, um pequeno grupo de malfeitores impôs ao país um regime anti-democrático diante da passividade de quase todos aqueles que juraram proteger a constituição e o Rei. Para proteger o jovem (pouco mais do que adolescente) Rei ficou Paiva Couceiro e meia dúzia de Africanistas. A audácia recompensou os republicanos (mas não Machado Santos que haveria de sofrer desterros, prisões até ser finalmente morto) que com pouco mais de dois mil homens conquistaram um país inteiro.
Porque o golpe republicano não representou nenhuma ruptura, mas sim a evolução natural do sistema liberal. Em 1834 o antigo Imperador do Brasil (que espancou a mulher grávida até esta morrer e que ao primeiro sinal da agitação no Rio largou a coroa imperial e o filho para vir a correr para a Europa tentar a sorte no nosso país) conseguiu com o dinheiro dos ingleses e com a tropa espanhola expulsar o Rei aclamado pelas cortes e pelo povo.
Depois disso o país foi governado por uma elite que nos intervalos das suas ridículas questiúnculas para saber quem mandava (os votos vinham depois de decidido quem chefiava o governo) saqueou animadamente o país durante 80 anos.
As diferenças entre os políticos monárquicos do liberalismo e os da Iª república eram poucas: ambos atacavam o Rei, ambos atacavam a Igreja, ambos achavam que o Estado e o povo existiam para lhes dar uma posição social (e financeira). De facto a diferença é que os republicanos estavam dispostos a ir mais longe para conservar o poder (basta pensar nos milhares de mortos da Iº Grande Guerra, que serviram apenas para tentar consolidar o poder do Partido Democrático)
O dia de amanhã não celebra uma grande reviravolta na História do nosso país. Celebra apenas o dia em que os políticos e os militares (que na aquela altura não se distinguiam bem) perderam de vez a vergonha e lançaram o país em 16 anos de caos, violência e despotismo.
Por isso a 5 de Outubro eu não festejo coisa nenhuma. É um dia de cobardia, baixeza e vileza que não deve ser esquecido nem branqueado por aqueles que sabem disso. Por outro lado também não choro o regime monárquico que caiu nesse dia. A monarquia caiu em Evoramonte no dia 26 de Maio de 1834. Demorou foi 76 anos a percebe-lo.

quinta-feira, setembro 27, 2012

A Igreja contra a Ciência?

Está hoje enraizado na nossa mentalidade a ideia de que a Igreja Católica foi e é um obstáculo à ciência. Claro que nunca se apresentam factos concretos que sustentem esta afirmação. O caso Galileu é sempre dado como exemplo da perseguição da Igreja aos cientistas. Ora, este caso não é tão amplamente usado por ser o mais emblemático, mas por ser o único. Se bem que hoje em dia também já há quem fale de Giordano Bruno, mas pouco. Quanto mais não seja porque Galileu era um verdadeiro cientista e Bruno um bruxo alquimista que o revisionismo anti-clerical gosta de transformar em cientista.
A verdade é que o cristianismo não foi adversário da ciência mas sim condição essencial para a revolução científica. Antes de mais, e esta evidência não precisa de grande raciocínio, porque a Igreja patrocinou monetariamente até ao século XVIII (depois deixou de ter dinheiro para isso) a investigação cientifica. A verdade é que a Igreja deu mais dinheiro para o desenvolvimento da ciência do que qualquer outra instituição e provavelmente mais do que todas as outras instituições juntas.
Mas a questão não se limita a dinheiro. A Revolução Cientifica acontece na Europa na transição da Idade Média para a Idade Moderna. A Europa do séc. XV estava longe de ser a sociedade mais rica ou desenvolvida que o mundo conhecera até então. A China nessa altura já levava alguns milhares de anos como estado unido e centralizado. O Egipto tinha inventado a geometria, construído as pirâmides e criado a maior biblioteca do mundo. A Grécia antiga tinha sido culturalmente mais desenvolvida. Os persas, os fenícios, os cartagineses tinham tido impérios bastante mais ricos. Roma tinha desenvolvido uma civilização tecnologicamente mais desenvolvida.
Contudo, foi na Europa fragmentada, pouco desenvolvida e relativamente pobre (comparado com a Ásia ou os antigos impérios) que a ciência nasceu como ramo da sabedoria autónomo.
O ponto de partida de toda a ciência é o facto de que toda a realidade está feita de modo a ser compreendida pelo homem. A razão pela qual a ciência avança é a certeza dos cientistas de que os factos naturais podem ser compreendidos. Mas esta certeza é um acto de fé. Não existe nenhuma evidência de que a realidade poder ser explicada, a não ser o facto de até agora ter sido sempre.
Este acto de fé nasce do cristianismo. Nas sociedades pagãs os factos naturais são atribuídos ao despotismo divino. Daí haver adivinhos, augures, gurus, xamãs, etc. O cristianismo, por outro lado, afirma que Deus é criador do universo, mas também que Deus se submete à razão. Por isso a criação é razoável e as suas leis podem ser conhecidas.
É esta certeza que permitiu a homens como Copérnico, Kepler, Galileu, Newton, entre outros, criar a ciência moderna.
O cristianismo não é travão da ciência, mas sim o motor de arranque da mesma. Sem a Igreja provavelmente continuaríamos a atribuir os trovões à vontade de Zeus e as boas colheitas a Ísis.

quarta-feira, setembro 19, 2012

Mário Soares e a Democracia.

 


Hoje o Dr. Mário Soares disse finalmente o que todos os media queriam que alguém dissesse: que o Presidente devia demitir o governo e convidar à formação de um governo de salvação nacional. Ontem os jornalistas já tinham tentado estender esta armadilha a António José Seguro que teve a inteligência (ou a decência) de não cair na esparrela.
A sugestão do pai do Partido Socialista é o culminar desta campanha sobre a falta de legitimidade do governo para se manter em funções depois das manifestações de sábado. Segundo vários senadores da política nacional a contestação popular ao governo era sinal de que o governo devia cair.
Eu não penso que o governo deva simplesmente ignorar a rua, contudo uma democracia parlamentar não se baseia em manifestações e opiniões de pessoas que se acham donas do povo. Mário Soares, Arménio Carlos, João Proença, Jerónimo de Sousa, Francisco Louçã , Vasco Lourenço não foram mandatos por ninguém para interpretar a vontade popular.
A legitimidade do governo advém do voto popular, que deu ao actual governo uma maioria de 132 deputados (em 230) fruto dos 50,35% de votos que recebeu nas últimas eleições. O Dr. Soares pode não gostar do resultado das eleições, mas em democracia não governa quem tem maior tempo de antena ou reúne mais povo na rua, mas quem ganha as eleições.
A maioria clara de que o governo dispõe na Assembleia da República não é um cheque em branco para fazer o que quiser. Quase metade do país votou nos outros partidos que estão representados no Parlamento. Contudo, depois do debate cabe decidir a quem foi eleito para governar.
Nomear um governo de salvação nacional um ano e três meses depois das eleições legislativas é uma ofensa à democracia. É declarar que a vontade popular (a legítima, expressa pelo voto nas urnas) deve ceder perante a sapiência de alguns iluminados.
O Dr. Mário Soares não deveria esquecer que depois do 25 de Abril a “rua” pertencia aos comunistas e à extrema-esquerda. O MFA condicionou todo o processo democrático com o “povo”. Contudo, foi Mário Soares e não Cunhal que foi primeiro-ministro do I Governo Consitucional. Porquê? Porque o PS teve 46,4% dos votos e o PC 12% nas eleições de 75. Assim é a democracia: em 1976 governou Mário Soares sem a rua mas com a legitimidade do voto, assim governa Pedro Passos Coelho em 2012.

domingo, setembro 16, 2012

António José Égalité!

 
 


Conta-nos a história que Luís Filipe II de Orleães, primo de Luís XVI, foi um dos principais financiadores dos movimentos que deram origem à revolução francesa. A família real acusava-o de ter inspirado (e patrocinado) a tomada da Bastilha. Aparentemente o seu grande objectivo era pôr-se à frente do movimento de contestação popular ao governo do Rei seu primo e fazer-se coroar monarca constitucional de França.

Contudo a excitação revolucionária rapidamente o ultrapassou. Em 1792, com a proclamação da I Republica, abdicou do seu nome de família e passou a ser o Citoyen Égalité. Conseguiu ainda ser eleito para a Convenção Nacional como vigésimo e último deputado por Paris. Da sua actividade parlamentar nada há para realçar a não ser ter votado favoravelmente a morte do seu primo e Rei, Luís XVI.

Durante o terror de Rosbepierre foi preso, julgado e guilhotinado. Nem o facto de ter financiado os movimentos revolucionários, nem o ter lutado contra o seu próprio povo no norte de França para impor a revolução, nem o ter votado a morte do Rei lhe serviu para livrar das garras do “povo” que tanto defendera.

Lembrei-me desta pequena história depois desta semana onde tantas e tantas personalidades incitaram o povo a revoltar-se contra as medidas de austeridade do governo. Apelos esses que culminaram nas manifestações de ontem.

Se António José Seguro, Mário Soares, Jerónimo de Sousa, Francisco Louçã, entre outros, não conhecem a história e o destino do Citoyen Égalité alguém lhes devia contar. É que ainda há poucos dias um dos blogues responsável pela manifestação de ontem em Lisboa se congratulava pelo facto de todos os deputados (esquerda incluída) e membros do governo da Grécia não puderem sair do parlamento sem serem atacados pelo “povo”.

quarta-feira, setembro 12, 2012

"Estaline - Na Corte do Czar Vermelho", Simon Sebag Montefiore

 
Acabei à pouco tempo de ler o livro “Estaline – A Corte doCzar Vermelho” (Aletheia, 666 pgs., 26,25€) de Simon Sebag Montefiore. O autor, um inglês de origem judia, é professor de história na Universidade de Cambridge e especialista na história da Rússia.
O livro narra a vida de Estaline, da sua família e dos seus amigos mais chegados após a sua chegada ao poder. Não se trata de um retrato intimista ou psicológico de Estaline, cheio de revelações bombásticas. O autor limita-se a narrar a vida social e familiar do ditador soviético tendo como pano de fundo os dramáticos acontecimentos do consulado do homem que governou a Rússia durante 30 anos.
O ponto de partida do autor é simples. Hoje em dia existe a tentação de atirar toda a culpa das monstruosidades dos crimes dos regimes totalitários para cima de um monstro, de um louco, de um psicopata.
Em vez do retrato de um ser desumano, Montefiore apresenta-nos o retrato de um homem normal. Um homem com família e amigos. Um homem que gostava de festejar os anos beber e comer com os que lhe eram mais próximos. Um homem que se comovia com a música. Um homem com sentido de humor e capaz de se comover com pequenas recordações (por exemplo, perdoou um homem que tinha o mesmo nome do padre que o ensinou a ler).
Para além disso, demonstra também que Estaline não era um monstro a actuar sozinho. Todos aqueles que o rodeavam eram apoiantes claros das suas políticas. Na obra o autor demonstra que nas purgas de 1937 todos os governantes das províncias pediram para aumentar a quota de dissidentes a prender ou matar ditadas pelo Politburo.
Esta biografia não desculpabiliza em nenhum momento as atrocidades de Estaline. Muito pelo contrário, torna-as ainda mais monstruosas. Porque demonstra que não foram fruto de um louco, mas de um homem normal que acreditava que a sua ideologia valia mais do que a vida.
Em última instância este é o facto mais assustador deste livro: é que todos nós podemos ser como Estaline. Todos nós podemos preferir a ideologia à verdade. Todos nós podemos preferir o mal ao bem. A diferença, em última instância, é de escala.

O anúncio de Passos Coelho, a austeridade e o Papa.

 
 
Desde que Pedro Passos Coelho anunciou as últimas medidas de austeridade temos sido inundados por um coro de críticas. Umas mais justas que outras, umas mais demagógicas outras mais sérias. Até simples desabafos foram transformados em notícia.
 
Não sei dizer se as medidas que o governo tomou são ou não as mais correctas. E acho justo que aqueles que percebem do assunto dêem a sua opinião. É claro que o caminho para sair da crise não é simples e mesmo pessoas bem-intencionadas, trabalhadoras e sérias podem errar. Por isso é natural que as opiniões sobre a eficácia destas medidas sejam divergentes.
 
Contudo não me deixa de espantar o facto que ninguém parece apresentar uma alternativa. É evidente que todos estão contra a austeridade, penso que até o governo está. Mas a verdade é que gastámos o que não tínhamos e agora temos que o pagar.
 
Seja com mais receita, seja com menos despesa, com mais trabalho a solução para esta crise nunca poderá ser fácil. Por isso gritar “basta de austeridade” sem apresentar uma solução não me parece que seja de ajuda.
 
Penso que neste momento precisamos de líderes que não finjam que a situação não é dramática. É preciso quem diga: amigos temos uma dívida grande, não temos maneira fácil de a pagar por isso é hora de arregaçar as mangas e lançarmo-nos ao trabalho.
 
A crise não foi provocado por este governo, nem sequer é culpa exclusiva do anterior. Nem sequer dos bancos ou das “grandes” empresas. Todos nós, eu incluído, contribuímos para ela: gastando mais do que tínhamos, trabalhando menos do que devíamos, votando em políticos que prometiam dar o que não tínhamos.
 
Preferíamos não viver nestes tempos, mas como diria Gandalf, não nos é dado escolher viver o tempo em que vivemos, só o que fazemos com o tempo que nos é dado.
 
A hora é dura e as perspectivas dramáticas: mas este é o tempo que nos é dado viver. O que podemos fazer? Ouvir a resposta do Papa Bento XVI no Encontro Mundial das Famílias a esta pergunta: Queridos amigos, obrigado por este testemunho que tocou o meu coração e o coração de todos nós. Que podemos responder? Não bastam as palavras; temos de fazer algo de concreto e todos nós sofremos pelo facto de sermos incapazes de fazer algo de concreto. Comecemos pela política: parece-me que deveria crescer o sentido da responsabilidade em todos os partidos. Não prometam coisas que não podem realizar; não se limitem a procurar votos para si, mas sintam-se responsáveis pelo bem de todos. Que se perceba que política é sempre também responsabilidade humana, moral diante de Deus e dos homens. Depois, naturalmente, temos os indivíduos que sofrem e – muitas vezes sem possibilidade de se defenderem – vêem-se obrigados a aceitar a situação como ela é. Mas aqui podemos também dizer: cada um procure fazer tudo o que lhe é possível, pense em si, na família, nos outros, com um grande sentido de responsabilidade, sabendo que os sacrifícios são necessários para avançar. Terceiro ponto: Que podemos fazer nós? Esta é a minha questão, neste momento. Creio que talvez pudessem ajudar as geminações entre cidades, entre famílias, entre paróquias… Agora, na Europa, temos uma rede de geminações, mas trata-se de intercâmbios culturais – sem dúvida, muito bons e muito úteis –, quando talvez haja necessidade de geminações noutro sentido: que realmente uma família do Ocidente, da Itália, da Alemanha, da França... assuma a responsabilidade de ajudar outra família. E o mesmo se diga das paróquias, das cidades: que assumam responsabilidades reais, ajudem concretamente. E podeis estar certos! Eu e muitos outros rezamos por vós, e esta oração não é só dizer palavras, mas abre o coração a Deus e assim gera também criatividade na busca de soluções. Esperamos que o Senhor vos ajude, que o Senhor vos ajude sempre! Obrigado!

terça-feira, julho 24, 2012

Awake My Soyl - Munford and Sons.

How fickle my heart and how woozy my eyes I struggle to find any truth in your lies And now my heart stumbles on things I don't know My weakness I feel I must finally show Lend me your hand and we'll conquer them all But lend me your heart and I'll just let you fall Lend me your eyes I can change what you see But your soul you must keep, totally free Har har, har har har har, har har awake my soul... awake my soul... How fickle my heart and how woozy my eyes I struggle to find any truth in your lies And now my heart stumbles on things I don't know My weakness I feel I must finally show Har har, har har har har, har har In these bodies we will live, in these bodies we will die Where you invest your love, you invest your life In these bodies we will live, in these bodies we will die Where you invest your love, you invest your life awake my soul... awake my soul... awake my soul... For you were made to meet your maker awake my soul... awake my soul... awake my soul... For you were made to meet your maker You were made to meet your maker.

quarta-feira, março 14, 2012

Stop Kony! E depois?

Assisti com algum cepticismo ao aparecimento do fenómeno Kony e do Lord’s Resistance Army’s. Tendo sempre a desconfiar de causas que geram automaticamente um adesão maciça. O defeito é meu, porque nunca é razoável partir do puro preconceito.

Na última sexta-feira, por insistência de alguns liceus de Comunhão e Libertação, lá vi o famoso vídeo do maior criminoso de guerra dos nossos tempos. O filme é um pouco irritante, muito emotivo e com algumas informações pouco exactas (tanto quanto consegui perceber, nenhuma mentira, mas muitas simplificações, como convém a um fenómeno de massas).

Mas, saltando por cima da irritação e do preconceito, permanece um facto: Joseph Kony há quase trinta lidera uma milícia que tem como único fim matar, roubar e pilhar. Um problema não só para o Uganda, mas também para outro países à volta onde ele actua. Prendê-lo, ou mesmo abatê-lo, é de facto uma coisa necessária.

É verdade que não é o maior problema do mundo, nem de África nem sequer do Uganda. Contudo foi o problema com que os autores do filme se embateram e que tentam resolvê-lo. Se havia maneiras mais eficazes de o fazer do que gastar rios de dinheiro em publicidade e viagens ao Uganda? Não sei. Parece-me contudo injusto critica-los do alto do meu comodismo, sentado à frente do computador no centro de Lisboa.

Porém há duas coisas que me ocorreram durante o filme. A primeira é de que eliminar Kony não resolve o problema das crianças soldado. A dor e a destruição que o LRA causou nos últimos trinta anos não vão desaparecer com a sua destruição.

É bom que se pare os criminosos de guerra, mas o problema de fundo não é que existam umas pessoas muito más que fazem coisas muito maldosas. O que falta realmente em África (e na Ásia, e na América e na Europa) é esperança. Não uma ilusão, não sonho, mas esperança. E a esperança não pode nascer da morte de alguém, por muito mau que ele seja.

Neste momento o LRA, segundo as notícias, tem poucos mais de trezentos soldados e está quase inactivo. Parar Joseph Kony fará justiça, mas não vai mudar nada. A mudança nasce da esperança. A esperança nasce do encontro com alguém que tem em si a promessa de algo que nos corresponde.

A segunda coisa que me incomodou no filme foi a ideia de que se perseguirmos e prendermos todos os “maus” então o mundo será um lugar bom. A história já demonstrou mil vezes que por muito que se derrotem os “maus”, outros “maus” aparecem.

Porque o mal habita antes de mais em mim. E o que muda a história não é que os “bons” vençam as guerras (embora seja melhor assim) mas antes de mais a conversão de cada homem. O mal causado pela violência e pela guerra deve ser combatido. Mas só aqu’Ele que tem o pode de converter o coração do homem pode mudar a história.

sábado, novembro 12, 2011

«Lá longe, em casa, há a prece:/ “Que volte cedo, e bem!”/ (Malhas que o Império tece!)/ Jaz morto e apodrece/ O menino da sua mãe»




Fez ontem 93 anos que acabou a Iª Guerra Mundial. A Grande Guerra foi um conflito bárbaro no qual morreram 15 milhões de pessoas e 20 milhões foram feridas (na altura Portugal tinha 6 milhões de habitantes!). Em média morreram 5600 soldados por dia!

Durante a Guerra foram exterminados um milhão de arménios na Turquia. Na Alemanha morreram 750 mil civis devido ao bloqueio aliado.

No final da Guerra a Europa tinha mudado radicalmente. Os três grandes impérios europeus tinham desaparecido: A Alemanha transformou-se numa república, o Império dos Habsburgo foi destroçado e a Áustria obrigada também a ser uma república, a Rússia tinha sucumbido aos sovietes.

Uma das razões pela qual se fala tão pouco da Grande Guerra é porque foi sucedida por uma guerra ainda mais bárbara. Calcula-se que na IIª Guerra Mundial tenham morrido mais de 60 milhões de pessoas.

Outra é porque o governo republicano decidiu enviar um Corpo Expedicionário português para o matadouro que eram as trincheiras da Flandres.

Sem que nenhuma das partes nos tenha atacado ou evocado o nosso auxílio, Afonso Costa e restante quadrilha decidiram brincar aos soldados com os filhos dos outros. Um pouco por todas as aldeias de Portugal foram pescados rapazes pobres e analfabetos. Depois de um curto treino foram enviados para a frente. Diz-se que o nosso exército estava num estado tão lastimoso que até os alemães tinham pena de nós e evitavam atacar os portugueses.

No total foram 200.000 os homens mal treinados, mal equipados e sub-nutridos que foram mobilizados para partir de Lisboa rumo a uma terra de que nunca tinham ouvido falar para lutar contra uma gente que eles nem sabiam que existia.

A razão: garantir à república o reconhecimento político por parte do governo inglês e construir uma causa comum que abafasse a balbúrdia que reinava na política portuguesa.

O resultado: num único ataque os alemães puseram o nosso exército em debandada e mataram cerca de 7 mil jovens portugueses. Segundo contam os historiadores os portugueses lutaram com bravura, mas a falta de balas e de armamento não deu para oferecer grande resistência.

O número de total de baixas no Corpo Expedicionário Português é incerto. Em batalha morreram entre 7 a 10 mil soldados. Para além disso houve um grande número de feridos permanentes e de homens que ficaram traumatizados para o resto da vida.

Portugal lutou durante pouco mais de ano e meio na Grande Guerra e apenas num cenário. Morreram tantos ou mais soldados durante este tempo do que nos 14 anos que lutámos nos três cenários da Guerra Colonial.

Foi mais um ano que passou sobre o fim deste terrível conflito. Mais um ano em que os soldados portugueses mortos pela avidez de glória e de poder da república foram esquecidos.

sábado, agosto 27, 2011

"Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja"



Dia 20 de Agosto de 2011, o Aeroporto de Cuatro Vientos cheio a transbordar. Depois de dias de calor imenso, de caminhadas entre multidões infindáveis, chegava o ponto maior das Jornadas Mundiais da Juventude: a Vigília com o Papa.

Éramos dois milhões de pessoas à espera de ouvir a mensagem que o Santo Padre tinha preparado para nós. Quanto o Papa vai começar a falar levanta-se um enorme temporal: rajadas de vento, chuva, raios e trovões. E nós no meio daquela multidão sem ter para onde fugir.

Uma única pessoa fica serena: um velho de oitenta e quatro e anos, que perante toda fúria da natureza se mantém firme. Enquanto tudo abanava e voava o Papa manteve-se de pé, ignorando os conselhos de prudência, olhando para (e pelo) seu rebanho.

E os jovens mantiveram-se também firmes, gritando por Bento XVI. Durante minutos pareceu um combate: quanto mais chovia, quanto mais o vento uivava mais nós cantávamos.

Até que finalmente a tempestade passou. O Santíssimo é trazido para o altar e ouviu-se um impressionante silêncio. Dois milhões de jovens, liderados por um velho de cabelos brancos, ajoelharam na lama e adoraram a Cristo.

Quem visse estes acontecimentos de passagem corria risco de apenas reparar nos jovens, que testemunharam estarem de facto enraizados em Cristo. Mas a verdade é que só nos mantivemos firmes na tempestade porque fomos confirmados pelo Papa.

A noite de Cuatro Vientos foi uma grande catequese do que é a Igreja: um povo sem medo, edificado sobre a rocha de Pedro, que adora o Seu Senhor.

SEMPER FIDELIS!

quinta-feira, agosto 11, 2011

O Drama da Liberdade

No dia 22 Julho um homem, depois de ter detonado uma bomba no centro de Oslo, matou 69 pessoas a tiro numa ilha onde decorria um acampamento de uma juventude partidária. Nos dias que se seguiram o autor destes crimes bárbaros foi sempre apelidado de louco.

Nos últimos dias Londres e várias outras cidades de Inglaterra estiveram a saque. Milhares de pessoas saíram à rua para saquear e incendiar. Neste caso os media continuam a falar da morte de um homem pela polícia, do desemprego, do fecho de centros sociais.

Nestes dois casos, como habitualmente, procuram-se sempre uma oportunidade para desresponsabilizar as pessoas: são loucas, não tem emprego, não tem onde se reunir.

De algum modo queremo-nos proteger, dizer a nós mesmos que estas situações se devem apenas a uma conjuntura, que podem ser evitadas com remédios, com acompanhamento psicológico, com politicas sociais.

Mas quer em Oslo quer em Londres encontramo-nos diante de um dos maiores dramas do homem: o facto de que cada pessoa poder escolher o mal. Não precisa de ser louca, nem de ter problemas sociais. O homem tem livre arbítrio.

O homem moderno deseja um sistema tão perfeito que já não precise de ser bom. Mas tal sistema não existe: a escolha entre a santidade ou o mal é colocada cada dia, cada instante, diante de nós. Este é o drama da liberdade.

quarta-feira, março 23, 2011

Finalmente, demitiu-se!

Hoje o Primeiro-Ministro apresentou a sua demissão ao Presidente da República. Tudo aponta para que haja eleições, nas quais José Sócrates tenciona concorrer.

Estes anos de governo socialista fizeram um mal enorme ao país. O próximo Primeiro-Ministro herda não só um país sem dinheiro, mas também um país sem educação, sem justiça, hipotecado por obras faraónicas.

Mas as consequências do consulado socialista vão mais longe. Nestes seis anos uma minoria bem pensante conseguiu impor ao país diversas engenharias sociais com o poder da lei. Educação sexual pornográfica e obrigatória, o aborto totalmente livre, a procriação artificial totalmente desregulada, as uniões de facto equiparadas ao casamento, o divórcio na hora e para acabar em beleza o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

E isto é mais grave do que a crise económica. Porque, bem ou mal, a crise acabará por passar, mas a sociedade terá que viver durante anos com esta mentalidade egoísta e contranatura que o governo instituiu através do Diário da República.
A acrescentar a tudo isto, José Sócrates conseguiu baixar ao nível da conversa de tasca o debate político em Portugal. Estes anos foram marcados pelo clientelismo, pela mentira, pela manipulação. Sócrates manteve-se até ao fim como um mau actor, chorando lágrimas de crocodilo. Com este governo a mediocridade e a falsidade foram elevadas a virtude. A ordinarice foi transformada em conversa de Estado.

Esperemos que esta demissão seja um fim de um ciclo. Que não mais voltemos a ter um tiranete, que que usa e abusa do poder para se promover a si aos seus.

domingo, março 20, 2011

Errore di Prospettiva - Claudio Chieffo.



Quando nós virmos tudo, quando tudo for claro,
pensa um pouco que gozo, que medos desfeitos.
Com a música dentro, com o coração mais pleno
da alegria de um tempo, de uma manhã serena.

Mas de uma coisa sei que jamais saberei rir:
é de todo mal que te quis fazer.

Se há uma coisa que desejo, se há uma coisa que vale
é habitar a tua casa, tudo o resto é banal.
E falar contigo
de quando era miúdo
e via as coisas
com os olhos de uma criança.

Lembras-te daquela vez e a fúria que tinha
e acreditava que fosse amor, queria ser justo.

A Manifestação Perdida




Na semana passada o país assistiu aquela que foi provavelmente a manifestação mais impressionante desde 1974. Centenas de milhares de pessoas desceram a Avenida da Liberdade para protestar sem suporte ou apoio de qualquer sindicato ou partido.

E não foi apenas o protesto de uma geração, mas de portugueses de todas as idade e orientações: novos, velhos, de extrema-esquerda, de extrema-direita. Tornou-se claro que não apenas os jovens que estão fartos.

E parece-me que é justo que estejamos fartos. De facto as coisas estão difíceis: cada vez mais desemprego, cada vez mais impostos, um Governo que só poupa nos ordenados, uma educação da vez mais medíocre, políticos cada vez mais fracos. O total silêncio dos políticos sobre a manifestação de dia 12 comprova aliás que a política vive hoje das ficções partidárias e longe da realidade do país.

Mas mesmo assim a manifestação deixou-me incomodado. Não porque não haja razões suficientes para nos manifestarmos, mas pela total ausência de uma proposta. Não foi um povo que desceu a Avenida, mas sim uma massa. Uma massa que não parece saber o que quer, só o que não quer.

E isto talvez seja maior drama do país. Todos sabemos o que não queremos, mas não estamos dispostos a fazer nada para que isso não aconteça. Em última instância estamos fartos dos políticos que temos, mas não queremos ser nós a substitui-los.

Uma massa que não sabe para onde vai está destinada a caminhar perdida até o tempo a dissolver.

quinta-feira, março 17, 2011

Pais presos por não levarem filhos às aulas de educação sexual!

Na Alemanha uma mãe esteve presa durante 43 dias por não ter deixado o filho às aulas de educação sexual estatal. Num estado democrático, que supostamente é uma dos lideres da União Europeia, uma mãe foi presa por quere educar o seu filho. E não foi caso único. Já foram condenados 53 pais pelo mesmo motivo.
Podem ler a noticia aqui e assinar aqui uma petição a pedir a libertação imediata deste pais.

Espalhem a noticia!

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Presidenciais, alguns números.

Esta noite não teve grandes vencedores. Cavaco ganhou, aumentou a percentagem, mas perdeu 500 mil votos. Aliás, só nas legislativas em 1985 teve o actual Presidente menos votos do que hoje.

Também Fernando Nobre foi considerado um vencedor. De facto teve um resultado muito digno, mas não vale a pena fingir que se tratava de uma figura apolítica. Nobre é um candidato criado por Soares para tirar votos a Alegre. Aliás, não deixa de ser engraçado reparar que Nobre só teve menos 0.2% pontos percentuais que Mário Soares em 2006 (embora tenha tido menos 190 mil votos).

Quanto a mim o grande derrotado desta noite, mais do que Manuel Alegre, é o Bloco de Esquerda. Foi o BE que impôs a candidatura de Alegre ao PS. Alegre sem apoios partidários teve em 2006 mais 300 mil votos do que o hoje, e o Mário Soares em 2006 só teve menos 45 mil votos do que o candidato do BE e PS hoje.

Ou seja, na primeira vez que o BE apresenta um candidato sério nas eleições os seus eleitores desaparecem. Provou-se que o Bloco é apenas um partido de protesto e nunca um candidato ao poder.

Por fim a abstenção. Hoje votaram menos 1.644.519 pessoas do que em 2006. Menos 1.301.063 do que nas legislativas de 2009. Só nas eleições presidenciais de 2001 é que a abstenção tinha ultrapassado os 50%. Mesmo assim, nessas eleições votaram mais 638.621 pessoas. Hoje houve mais 131.523 votos em branco (na prática os votos em branco ficara em 5º lugar nestas eleições) do que em 2006 e mais 43.394 votos nulos (mais do que duplicaram).

Estes números deixam a nu um facto: o total desinteresse das pessoas nestas eleições. Os candidatos eram tão indiferentes, que para a maior parte da população era tanto fazia quem ganhava.

Para além disso, olhando para os menos 500.000 de Cavaco, assim como para a abstenção e sobretudo para os votos nulos e em branco é impossível não pensar em todos aqueles que em 2006 viram em Cavaco a última esperança contra o progressismo do Governo de Sócrates e que passados cinco anos se recusaram a votar nele. No fim, não fez diferença, mas fica o aviso a todos os católicos políticos que não podem dar o voto católico por adquirido.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

segunda-feira, janeiro 10, 2011

O Presidente Institucionalizado

“Um presidente que actue exclusivamente com base nas suas convicções filosóficas e religiosas é um mau presidente, porque não cumpre uma função fundamental que a Constituição lhe atribui, que é garantir a unidade do Estado”. Com esta frase justificou o Presidente da República o facto de não ter vetado a lei que equipara a união de duas pessoas do mesmo sexo ao casamento.

Com esta afirmação demonstra o Professor Cavaco Silva duas coisas:

- Pelos visto não percebe que a o casamento entre pessoas do mesmo sexo não é uma questão meramente filosófica ou religiosa. É antes de mais uma questão cultural: permitir que dois homens se casem é reduzir o casamento a um mero reconhecimento público da afeição entre duas pessoas. Ora não é para isto que o casamento serve, para proteger a família que se funda quando um homem e uma mulher se unem com o fim de constituir família. Esta nova lei destrói o casamento, ataca por isso a família e a protecção que a sociedade lhe concede.

- Para além disso o Presidente parece não perceber bem a natureza do cargo que ocupa. Quando votamos nas eleições presidenciais não votamos num partido ou numa ideologia, mas numa pessoa. Votamos no homem que achamos que pelas suas capacidades e ideais está mais apto a desempenhar o papel de Presidente da República. Não agir conforme aquilo que publicamente testemunha é ir contra o voto de quem o elegeu. Não há dois Cavaco Silvas: um que beija a mão ao Santo Padre e outro que promulga a lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo. O actual presidente deixou claro com esta resposta qual dos dois é.

É sobretudo esta a segunda razão que me vai levar a provavelmente votar em branco nas próximas eleições. Não vale a pena dar o meu voto a um homem que esconde a sua humanidade e age como uma instituição.

Inquisição em Portugal

"O pedido [estabelecimento da Inquisição] de El-Rei de Portugal [Dom João III] não podia ser bem recebido na cúria, onde acerca dos judeus havia ideias e normas de tolerância absolutamente diferentes daquelas que geralmente vogavam aquém Pirenéus; e nem facilmente se esqueceria em Roma, que mais de uma vez os papas se viram obrigados a protestar contra os abusos cometidos em Castela à sombra do Santo Ofício.

(...)

Até El-Rei chegava a notícia, transmitida pelos magistrados de que em diversos pontos a cólera popular ameaçava desafogar-se em excessos de violência. (...) Para compreender a resolução de Dom João III, bastará supor-lhe a intenção, aliás bem justificada, de pôr termo aos conflitos entre as justiças seculares e as eclesiásticas, e de desarmar as iras do povo contra os judeus, instituindo uma jurisdição, a do Santo Ofício, a quem exclusivamente ficava pertencendo a competência em matéria de heresia.

(...)

Lourenço Pucci, Cardeal Santiquatro, uma das personagens mais influentes na cúria, a quem Brás Neto deu conhecimento da pretensão para alcançar dele favor em ordem ao deferimento, mostrou grande repugnância em patrocinar semelhante negócio. Entedia que se tratava apenas de espoliar a gente hebreia das suas riquezas, a pretexto de heresia, como em Castela se praticava, segundo voz corrente. Pela sua parte era de opinião que se desse liberdade aos cristãos-novos para voltarem à sua crença antiga, punindo-se rigorosamente os que preferissem ficar no grémio do cristianismo se delinquíssem contra a fé."

cf. FORTUNATO DE ALMEIDA, História de Portugal - Desde os Tempos Pré-Hitóricos a 1580, págs. 388 a 390, BERTRAND EDITORA, 2003, Lisboa.

A Inquisição portuguesa, assim como a Inquisição espanhola, nasceram contra a vontade do Papa, por pressões e ameaças. Desde de sempre foram controladas pelo poder real e usadas por este para atingir os seus fins, que nem sempre coincidiam com os da Igreja.

Nos nossos dias a Inquisição virou um mito e uma arma de arremesso contra a Igreja, totalmente desproporcional aos factos históricos. Ao contrário do que o mito faz acreditar a Inquisição não só era geralmente muito mais branda do que os tribunais civis, como era também um tribunal muito mais competente e honesto.

Claro que houve abusos, muitos dos quais praticado por clérigos. Mas a maior parte destes abusos não se deveu a fanatismos religiosas, mas a inveja e cobiça.

É importante estudar os factos em fez de nos deixarmos cegar pela ideologia.

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Catolicismo e Revolução Francesa - Padre João Seabra

A tomada da Bastilha está a ser comemorada em França com um convénio sobre “Imagens da Revolução”, que suponho proporá as do costume: a Revolução como triunfo da razão sobre o obscurantismo, e como triunfo da liberdade sobre a opressão. Quem propõe imagens não está, normalmente, interessado nos factos: quer manter funcionais os mitos e os símbolos do imaginário colectivo. Ora eu proponho-me escrever sobre factos. Alguns, claro: não falo de muitos outros, também importantes. Mas aqueles de que falo são factos reais, e sem os conhecer não se compreende a Revolução Francesa.


Igreja e Revolução; ideias comuns, factos reais

As simplificações dos manuais escolares e da cultura mediática são conhecidas: a Igreja era aliada do Antigo Regime e identificava-se com ele; opôs-se à Revolução e combateu os novos ideais; só tardiamente se juntou à causa da democracia e da liberdade, reconhecendo na trilogia “Igualdade, Liberdade, Fraternidade” uma reformulação actualizada do Evangelho. O Dr. Raul Rego e monsenhor Lefebvre estão de acordo em afirmar que, no Vaticano II, a Igreja aderiu à Revolução Francesa, embora esse facto os impressione de maneira diversa.

Observados de perto, porém, os factos adaptam-se mal às generalizações. Os “Cahiers de Doléances”, cujo estudo é fundamental para conhecer o estado de espírito e as reivindicações populares que serviram de base às transformações sociais subsequentes, não contêm elementos de luta anti-religiosa. O clero apoiou de maneira larga as reclamações do Terceiro Estado e, nos primeiros tempos da Revolução, inseriu-se na onda patriótica, benzendo as bandeiras da Guarda Nacional. Mesmo o “pôr à disposição da Nação” dos bens eclesiásticos, com a abolição dos direitos feudais a quatro de Agosto de 1789, não foi vivido como um momento de luta anti-religiosa: a Assembleia legislou imediatamente sobre a manutenção do clero. E a primeira festa da Revolução, 14 de Julho de 1790, foi uma missa campal, concelebrada no Campo de Marte, diante dos representantes dos departamentos, por trezentos sacerdotes, entre os quais o pároco de Saint-Sulpice, Monsieur de Paucemont, que será dentro em breve o chefe dos “refractários”. Claro que há divisões no clero – mas são políticas, e assumidas como tal. Um ano depois da tomada da Bastilha, não há nenhuma frente séria de conflito entre a Igreja e a Assembleia.


Constituição Civil, Igreja nacional, perseguição religiosa

Mas dois dias antes, a 12 de Julho de 1790, fora publicada a Constituição Civil do Clero: ora esta é uma lei anticatólica, de galicanismo extremo. O Papa não é sequer mencionado: a Igreja é definida legislativamente como uma igreja nacional, inteiramente submetida ao poder do Estado. Todos os bispos e padres a têm de jurar, sem o que ficam impedidos de exercer o ministério.
É assim que começa a luta da Revolução contra a Igreja. Esta luta não corresponde a nenhum movimento popular nem a nenhuma necessidade política. Corresponde à vitória de um grupo influente de clérigos anti-romanos, jansenistas e galicanos, que se apoiam no jacobinismo mais radicalmente anticristão para fazerem o que julgam ser uma reforma da Igreja: porque em todas as épocas se encontra sempre uma vanguarda da Igreja disposta a ser a retaguarda da História.

A fidelidade ao Papa, do clero e dos fiéis, que os legisladores não esperavam, criou uma crise de dimensões profundíssimas, cuja influência no futuro da Revolução, até ao bonapartismo e, finalmente, à restauração, foi imensa. Em Março de 1791 o Papa proibiu o juramento da Constituição Civil, pelo breve Quod Aliquantum. Só quatro bispos a aceitaram e, talvez, metade dos padres, embora muitos se retractassem depois da proibição papal. Os “ajuramentados” são maioritariamente rejeitados pelos fiéis; mas os “refractários”, que recusam jurar a lei, não podem exercer o culto e ficam vagas oitenta dioceses, mais de 20.000 paróquias. O clero refractário é sucessivamente destituído, condenado à deportação pela Assembleia Legislativa a 26 de Agosto de 1792, e à morte pela Convenção a 18 de Março de 1793. Entre 30.000 a 40.000 padres abandonam a França, quase 3.000 são guilhotinados. Os massacres de Setembro de 1792 fazem centenas de vítimas entre sacerdotes e religiosos.

A luta religiosa radicaliza a Revolução. Apenas um exemplo: a fuga de Luís XVI, terminada em Varennes, levando ao processo e morte do rei, dividiu irremediavelmente a França em dois blocos inconciliáveis; mas parece ter-se por documentalmente assente que a razão determinante da fuga do rei foi o terem-no obrigado, em Abril de 1791, a receber a comunhão pascal de um padre ajuramentado, pois o rei estava disposto a abdicar do poder absoluto mas não a viver contra a sua fé.


O genocídio franco-francês

Em 1793 começa a guerra da Vendeia. A chouannerie, antes que monárquica é católica, como diz um camponês angevino ao juiz Clémenceau: “Je ne demandons point de roi. Mais je voulons nos bons prêtres”. É a recusa das consciências de aderir à religião do Estado, o direito de prestar culto a Deus de acordo com as próprias convicções que os chouans defendem. Para os vencer, é preciso “incendiar tudo”, como diz Tourreau, general-chefe do Exército do Oeste, em carta ao Comité de Salut Publique de 17 de Janeiro de 1794. E a 11 de Fevereiro o comité dá a ordem: “Écrasez totalement cette horrible Vendée”. É a hora das Colunas Infernais, que recebem do general Grignon a proclamação demencial: “Entregar às chamas tudo o que puder ser queimado, e passar ao fio da baioneta todos os habitantes. Bem sei que pode haver alguns patriotas nesta região: é igual, devemos sacrificar tudo”.

O “carniceiro de Vendeia”, Westermann, escreve a 23 de Dezembro de 1793: “Fizemos uma carnificina (boucherie) horrível. Já não há Vendeia: exterminei tudo. Deixámos de fazer prisioneiros: a piedade não é revolucionária”.

Não se trata dos excessos habituais da soldadesca. É a minuciosa execução, se ouso dizer a palavra, dos decretos da Convenção de 1 de Agosto e de 14 de Outubro de 1793: “Enviar um exército incendiário, de modo a que nenhum homem nem nenhum animal possa subsistir sobre esse solo”. Do horrível massacre, que dura quase um ano, recordemos apenas uma data: 28 de Fevereiro de 1794, quando na Igreja des Lucs os exércitos da Convenção chacinaram até à última 110 crianças com menos de oito anos de idade.


A revolução contra o catolicismo

Daí em diante, até ao fim do século, a Revolução fará do catolicismo fiel ao Papa o seu inimigo principal. Até Roma levarão a guerra os exércitos franceses. Pio VI morre desterrado e prisioneiro de França. A concordata que um humilhado e heróico Pio VII celebrará, e a que Napoleão juntará os “Artigos Orgânicos”, colocará a Igreja francesa numa sujeição ao Estado de que levará um século a libertar-se. O esforço por criar, primeiro uma Igreja nacional, depois uma religião laica, com o culto do Ser Supremo e da Deusa Razão, ocupará grande parte das energias da Convenção, dos furores de Fouquier-Tinville, e a lâmina da guilhotina.


Revolução francesa e liberal

Até aqui, os factos de que prometi falar: documentos, nomes, datas – maçadas que todos deviam saber, se a História consistisse humildemente em contar o que sabemos do passado, em vez de ser, como normalmente é, inventar uma genealogia às opções do historiador que a escreve ou do imperador que a estipendia.

Mas depois de contar os factos, vou ousar também três comentários – para que ao menos a mim interesse alguma coisa do que escrevo...

Primeiro. A Revolução estabeleceu legislativamente uma Igreja nacional. Ora isto nada tem a ver com a liberdade: reencontramos essa tentativa no Kulturkampf, de Bismark, no cristianismo alemão de Hitler, na Igreja patriótica de Mao-Tsé-Tung, na Igreja popular dos sandinistas. Ao bater-se contra esta prepotência, a Igreja Católica bate-se pela liberdade de consciência, pelo direito de qualquer homem prestar culto a Deus segundo as suas convicções. A Revolução Francesa, com a Constituição Civil do Clero, estabeleceu-se como a raiz de todos os totalitarismos modernos.

Segundo. A guerra de Vendeia é o primeiro exemplo de guerra total que conhecemos, pelo menos desde que Dario derrotou o império assírio. Os campos de extermínio nazis, a destruição dos arménios, o genocídio do Camboja, são herdeiros das instruções da Convenção ao Exército do Oeste. Porque Pol Pot não é um sátrapa oriental, como gostamos de pensar: é um ideólogo que fez o Maio de 68 em Paris como jovem estudante e aprendeu o desrespeito da pessoa humana na escola onde ele melhor se ensina: na descristianização da cultura ocidental. A Revolução Francesa, com a Guerra da Vendeia, estabeleceu-se como modelo de todos os genocídios contemporâneos.

Terceiro. A Declaração Universal dos Direitos do Homem, a Declaração sobre a Liberdade Religiosa Dignitatis Humanae do Concílio Vaticano II, os Pactos Internacionais de Direitos Humanos, a Acta Final de Helsínquia, devem mais ao breve Quod Aliquantum de Pio VI, ao clero refractário, aos camponeses humildes da Vendeia e a Monsieur de Charette, do que à Revolução Francesa. O que a Revolução quis foi sacralizar o Estado, e para isso tentou destruir o cristianismo. A defesa da integridade do catolicismo representou, então como sempre, a fronteira da dignidade da pessoa humana.

E termino. Nos dez anos que vão de 1792 à Concordata de 1802, a Igreja Católica foi privada de todos os seus bens, de estatuto jurídico, da possibilidade de expressão pública, de qualquer forma visível de organização; viu destruídos centros de irradiação intelectual e espiritual, dispersas ou queimadas bibliotecas e acervos culturais seculares, profanados templos e conventos. Perdeu tudo. Mas ganhou aquilo com que se constrói, desde o princípio: mártires, milhares de mártires. Não é o menor dos grandes serviços prestados à causa da liberdade pelo Papa João Paulo II o ter ousado, contra os diktats da cultura dominante, mandar reabrir os processos de canonização dos mártires da fé que fez a Revolução Francesa.

Artigo publicado n’O Independente, 14 de Julho de 1989