quarta-feira, dezembro 08, 2010

Catorze anos.

Fez hoje 14 anos que fui investido acólito na Igreja de Santos-o-Velho. Durante estes anos acolitei em muitos sítios, desde a Sé de Lisboa a pequena Capela de São Brissos. Acolitei em missa solenes com 20 acólitos e em missas onde para além de mim e do padre havia só mais duas ou três pessoas. No altar assisti por catorze vezes ao Nascimento, à Paixão, à Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Contudo ao fim destes anos todos e de todas estas experiências cada vez mais me comovo com a beleza da Liturgia da Igreja, que tem o seu centro na Eucaristia. Percebo que esta comoção se deve muito ao facto de ser acólito. Perceber que eu, através da minha frágil humanidade, contribuo para que um pedaço de pão e um golo de vinho (num cálice tantas vezes preparado por mim) se transformem no Corpo e Sangue de Cristo é vislumbrar a Misericórdia de Cristo para comigo. Porque se o padre no Altar é Cristo, o acólito é como aquela criança que trazia os pães e os peixes que Jesus Multiplicou. Cristo não precisava deles para nada, mas decidiu associar aquele miúdo à Sua Glória.

Estou grato ao Senhor por este privilégio de o servir tão próximo. Peço que o meu ministério seja para minha santificação e que sirva de testemunha da Sua Glória para todos.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Morreu Dom Júlio Tavares Rebimbas, Arcebispo-bispo Emério do Porto

Faleceu o Senhor D. Júlio Tavares Rebimbas, Arcebispo-Bispo emérito do Porto. Oriundo do Presbitério de Aveiro, foi sucessivamente Bispo do Algarve, Auxiliar do Patriarca de Lisboa (com o título de Arcebispo de Mitilene), 1º Bispo de Viana do Castelo e finalmente Bispo do Porto (1982-1997).

Em todos estes relevantes cargos eclesiais, o Senhor D. Júlio foi um dedicado Pastor do Povo de Deus, concretizando o espírito e as determinações do Concílio Vaticano II, quer nas iniciativas que tomou quer no seu modo cordial e próximo de estar e proceder com todos. Foi constante amigo do seu clero e deixou em todas as Dioceses que serviu um rasto de gratidão e simpatia, inteiramente merecidas.

Residia na Casa Diocesana de Vilar, estrutura de grande importância para a actividade pastoral, que edificou e bem denota o seu empenho e clarividência.

A Diocese do Porto está profundamente grata ao Senhor D. Júlio Tavares Rebimbas, guarda no coração o seu testemunho e pede a Deus a maior recompensa dos seus muitos e generosos trabalhos.

Porto, 6 de Dezembro de 2010

+ Manuel Clemente, Bispo do Porto

A Não Perder

domingo, dezembro 05, 2010

Higiene Mórbida

Quando vi esta notícia pela primeira vez, no 31 da Armada, pensei que era a gozar. Depois fui ler a notícia no DN e percebi que era pior do que podia imaginar.

Depois do programa da troca de seringas, vão começar a ser distribuídos "kits snif", que incluem palhinhas e preservativos. Acho um gesto tão absurdo que o nosso dinheiro em vez de ser gasto a ajudar toxicodependentes a deixar o mundo da droga, seja desperdiçado a garantir que toda a gente pode snifar em condições de perfeita higiene.

Medidas deste género (seringas grátis, preservativos por todo o lado, salas de chuto) rebaixam o Homem. Diante do drama da droga, do sexo, do instinto o que a sociedade tem a dizer: faz o que quiseres, degrada-te o que quiseres, rebenta contigo, mas fá-lo em condições higiénicas.

Depois espantam-se por haver mais toxicodependentes, mais adolescentes grávidas, mais doenças venéreas.

Dirty Old Town - Dubliners



I met my love by the gas works wall
Dreamed a dream by the old canal
I Kissed my girl by the factory wall
Dirty old town
Dirty old town

Clouds are drifting across the moon
Cats are prowling on their beat
Spring's a girl from the streets at night
Dirty old town
Dirty old town

I Heard a siren from the docks
Saw a train set the night on fire
I Smelled the spring on the smoky wind
Dirty old town
Dirty old town

I'm gonna make me a big sharp axe
Shining steel tempered in the fire
I'll chop you down like an old dead tree
Dirty old town
Dirty old town

I met my love by the gas works wall
Dreamed a dream by the old canal
I kissed my girl by the factory wall
Dirty old town
Dirty old town
Dirty old town
Dirty old town

Link para a entrevista do Padre João Seabra à TVI24.

Após horas de pesquisa consegui finalmente encontrar um link para a entrevista que Constança Cunha e Sá fez ao Padre João Seabra na última Terça-Feira. É um entrevista preciosa onde o Padre João comenta e esclarece alguns dos pontos do livro do Santo Padre, A Luz do Mundo, à volta dos quais a comunicação social fez mais barulho.

Para ver a entrevista clique aqui.

O tempo é breve.

Já estamos no IIº Domingo do Tempo do Advento. Neste momento só temos mais 20 dias para preparamo-nos para o Natal. É nestas alturas que a frase "o tempo é breve" ganha outro sentido. De facto não podemos desperdiçar tempo, não só porque Deus nos pode chamar quando bem entender, mas também porque não aproveitando o tempo quando damos por nós toda a vida passou diante dos nossos olhos e nós não reparamos.

A maior parte dos católicos, nos quais eu me incluo, sofre duas grandes tentações neste tempo do Advento. A primeira, bastante comum, é irritar-se com a Popota, a Leopoldina, o Pai-Natal da Coca-Cola, as luzes roxas do Chiado e o carrossel no Rossio. Ou seja, passamos o Advento irritados porque o Natal perdeu o significado.

A segunda tentação, muitas vezes fruto desta, é a de passarmos o advento a celebrar o Natal. Organizamos quinhentos jantares de Natal, vamos a todos os concertos de Natal e cada vez que ouvimos o Jingle Bells cantarolamos o Adeste Fidelis.

Mas a verdade é que o tempo é breve. O tempo que eu perco a tentar mostrar aos outros como se vive o Natal é tempo em que eu não me preparo para receber Jesus. E pode acontecer que o Advento acabe e eu tenho ensinado a quinhentas pessoas que o Natal é o nascimento de Cristo sem que eu esteja preparado para o receber. E assim todos os meus discursos e iniciativas para salvar o Natal se transformam num discurso ético e maçador.

Espero aproveitar os próximos vinte dias a aproveitar este tempo que a Igreja me concede a preparar a vinda de Jesus. Para que quando ele nasça eu não fique a discutir profecias no palácio de Herodes mas siga a estrela como os magos e possa dizer com eles: "vim adorá-Lo".

P.S.: Dois acontecimentos que são de grande ajuda para o Advento (para além daqueles que a Igreja recomenda, oração, penitência e caridade) são os estandartes de Natal e o Presépio na Cidade. Ajuda-me a não esquecer aquele que espero.

Dos Homens e dos Deuses.


Terça-feira à noite fui finalmente ver "Dos Homens e dos deuses". O filme conta a história de 9 noves monges trapistas de um mosteiro na Argélia. O filme roda à volta da decisão deles diante da violência que grassa no país: partir ou ficar.

A mim impressionou-me duas coisas no filme. Antes de mais a humanidade das personagens. A decisão de partir ou de ficar não é automática, mas sim uma escolha baseada na experiência que fazem da vida em comunidade (comunidade em dois sentidos, não só a vida comunitária de um mosteiro, mas também a vida na aldeia que nasceu junto ao mosteiro).

De todas as personagens a que mais me impressionou foi o frade Christian, responsável pelo mosteiro. Impressionou-me por um lado a sua liberdade diante das circunstâncias. Mas por outro, a paternidade dele ao acompanhar os seus irmãos menos firmes

A segunda coisa que me impressionou foi ver a vida que nasce à volta do mosteiro. De facto a virgindade consagrada impede aqueles homens de serem biologicamente pais, mas torna-os pais de todos aqueles com que se cruzam.

O filme ainda está em exibição nas Amoreiras. É parado, é comprido e é francês. Mas sobretudo é crime não o ver.

P.S.: O povo publicou dois juízos bastante melhores do que este sobre o filme. Vão lá ver.

Here I'am - Bryan Adams



Here I am - this is me
There's no where else on earth I'd rather be
Here I am - it's just me and you
And tonight we make our dreams come true

It's a new world - it's a new start
It's alive with the beating of young hearts
It's a new day - it's a new plan
I've been waiting for you
Here I am

Here we are - we've just begun
And after all this time - our time has come
Ya here we are - still goin' strong
Right here in the place where we belong

Here I am - this is me
There's no where else on earth I'd rather be
Here I am - it's just me and you
And tonight we make our dreams come true


Here I am - next to you
And suddenly the world is all brand new
Here I am - where I'm gonna stay
Now there's nothin standin in our way


Here I am - this is me

"A única alegria na vida é começar. Viver é belo porque viver é começar sempre. A cada instante." Cesar Pavese

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Ética institucional.

A Ministra da Saúde disse hoje que "era importante que a Igreja esclarecesse qual a sua posição" sobre o preservativo. Esta declaração foi feita na apresentação de um livro sobre a SIDA, no âmbito do Dia Mundial contra a SIDA.

Esta declaração da Dra. Ana Jorge demonstra uma de duas coisas: ou uma grande falta de conhecimento ou demagogia barata. A posição da Igreja sobre o preservativo é sobejamente conhecida. Se é admissível que alguns mentes mais frágeis se tenham confundido pelo escareceu feito pela comunicação social sobre o livro do Papa, já não o é que a ministra da Saúde também se confunda. Mas caso de facto esteja confusa tem uma boa solução: perguntar! Pode pedir ao Senhor Patriarca que lhe explique, ou ao presidente da Conferência Episcopal Portuguesa ou muito simplesmente ao prior da sua paróquia.

Fazer esta declaração parece ser apenas demagogia barata. Demagogia essa sempre condenável num assunto sério como este, ainda mais quando feita pela responsável máxima pela saúde no nosso país.

E isto leva-me a uma segunda questão. Estas declarações são muitos graves. Porque de facto não se trata de uma simples cidadã a demonstrar a sua pouca inteligência ou a sua demagogia, mas de um membro de um governo que se arroga no direito de pedir satisfação à Igreja.

Não se trata da opinião de uma cidadã anónima, mas de declarações da representante de um órgão de soberania. Se tens opiniões pessoais sobre a Igreja, que as dê pessoalmente a quem de direito. Quanto fala à imprensa representa o Governo e o Governo não tem que pedir satisfações à Igreja sobre a sua doutrina.

sexta-feira, novembro 26, 2010

Viva Cristo Rei!


O genocidio é definido pelas Nações Unidas como: "any of the following acts committed with intent to destroy, in whole or in part, a national, ethnical, racial or religious group, as such: killing members of the group; causing serious bodily or mental harm to members of the group; deliberately inflicting on the group conditions of life, calculated to bring about its physical destruction in whole or in part; imposing measures intended to prevent births within the group; [and] forcibly transferring children of the group to another group."

O primeiro genocídio da história moderna foi o que ocorreu durante a rebelião da Vendeia entre 1793 e 1796. A revolta da Vendeia nasceu da perseguição ao clero que recusou jurar a Constituição Civil do Clero. A revolta demorou três anos a ser abafada. Quando o exército contra-revolucionário foi finalmente derrotado pelas tropas da república a Vendeia foi totalmente arrasada. O número de mortos é difícil de calcular e varia entre os 117 mil e os 450 mil numa população de 800 mil habitantes.

O segundo genocídio da modernidade ocorreu já no século XX e foi levado a cabo pelos Turcos contra os cristãos arménios entre 1915 e 1918. Mais uma vez é difícil de calcular o número de mortos, dado que a Turquia nega que tenha existido um genocídio. Os números variam entre 600 000 e 1 500 000.

É um facto que nenhum destes genocídios se pode compara ao Holocausto. A solução final alemã foi um plano elaborado a sangue frio para eliminar todos os judeus. Contudo, sem menorizar a perseguição aos judeus, destes dois genocídios ninguém fala. Sobre estes dois genocídios ninguém faz filmes, nem museus. Por estes genocídios ninguém obriga a Turquia e a França a pedir constantemente desculpa.

Mas o saldo de cristãos mortos e perseguidos nos tempos modernos não se fica aqui. Foram milhares os católicos que morreram no México entre 1917 e 1926 por se recusarem a abandonar a fé. Também em Espanha, na década de 30, foram milhares os mártires da fé. Destes já 498 foram elevados aos altares.

A somar a estes temos todos os cristãos que se opuseram e foram mortos pelos regimes totalitários do século XX. Antes de mais na União Soviética e na Alemanha Nazi. Mas também um pouco por todos os países por onde se espalhou o comunismo.

Não podemos também esquecer todas aquelas comunidades cristãs espalhadas pela Ásia que se mantém firmes na fé apesar da perseguição popular, do governo, ou de ambos. Os cristãos do Líbano, da Índia, do Paquistão, da China, na Birmânia, do Vietname, da Arábia Saudita, do Irão, da Síria, etc. Convém também não esquecer os cristãos africanos, vítimas do extremismo islâmico que alastra em países como a Somália, o Sudão, a Nigéria ou a Costa do Marfim.

Neste caso não estamos a fala de acontecimentos de há duzentos ou cem anos, mas de perseguições que se passam hoje. Há menos de um mês mais de 40 cristãos foram mortos na Catedral de Bagdade.

Mas por estes milhões de mortos ninguém faz manifestações. Para estes milhões de mortos ninguém exige monumentos e "memórias históricas". Os cristãos permanecem hoje como ó único povo que é perseguido sem que a esquerda moderna ou o poder do mundo se preocupes com o assunto.

Contudo "nem um cabelo da vossa cabeça se perderá". O nome de todos os mártires que perderam a sua vida na defesa da fé encontra-se escrito no livro da vida. Não os esqueçamos e rezemos a eles para permanecermos firme na fé em Cristo, pelo qual eles ofereceram a sua vida.

Manuel Camagni

Morreu ontem Manuela Camagni. Esta senhora, de quem pouca gente terá ouvido falar, fazia parte daquilo a que o Santo Padre chamava a "familia pontificia", ou seja o grupo de pessoas que toma conta do apartamento do Papa.

Manuela pertencia as Memore Domini, um associação de consagradas nascida do carisma de Comunhão e Libertação. Foi professora de física antes de começar a dedicar-se ao trabalho doméstico em vários apartamentos em Milão. Antes de ir para Roma, Manuela esteve ainda ao serviço do bispo de Tunis.

Morreu ontem repetinamente depois de ter sido atropelada na Nomentana. Fica aqui o comunicado do Padre Julian Carrón sobre a sua morte.

Mensagem do Padre Julián Carrón pela morte de Manuela Camagni, Memores Domini da família pontificia.

Tendo tomado conhecimento da notícia da morte repentina de Manuela Camagni, Memores Domini que prestava o seu serviço no apartamento papal, o Padre Julián Carrón presidente da Fraternidade de Comunhão e Libertação, enviou esta mensagem a todo o movimento:

«Caros amigos, a morte repentina da nossa amiga Manuela Camagni é a modalidade misteriosa com a qual o Senhor nos obriga a pensar n’Ele, renovando a certeza que “nem um só cabelo da vossa cabeça se perderá”, como nos disse a Liturgia de hoje. Estreitemo-nos ainda mais intensamente no abraço do Santo Padre, como filhos que querem condividir em tudo a sua humanidade ferida.

“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos”. O dar a vida por parte da Manuela, manifestou-se de modo evidente e surpreendente tanto através da sua disponibilidade à missão, na experiência da Tunísia, como no serviço ao Santo Padre. O seu sacrifício renove em todos nós a verdade do nosso “sim”, para que a vitória de Cristo se imponha sempre mais nos nossos corações.

Don Giussani obtenha de Nossa Senhora o dom da felicidade eterna para a nossa amiga e o da consolação para o Papa»

Sala de Imprensa do Cl Milão, 24 de Novembro de 2010.

terça-feira, novembro 23, 2010

A Luz do Mundo


Será lançado em Portugal dia 30 um livro chamado “Luz do Mundo”. Esta obra é fruto de entrevista que o Santo Padre concedeu a Peter Seewald. Nestas entrevistas o Papa fala do seu pontificado, dos problemas que a Igreja atravessa e das várias questões actuais.

Um dos assuntos abordados no livro foi as declarações do Santo Padre a caminho de África. Na altura Bento XVI disse que o problema da SIDA em África não se resolve apenas com dinheiro e preservativos mas: A solução pode vir apenas da conjugação de dois factores: o primeiro, uma humanização da sexualidade, isto é, uma renovação espiritual e humana que inclua um novo modo de comportar-se um com o outro; o segundo, uma verdadeira amizade também e sobretudo pelas pessoas que sofrem, a disponibilidade à custa até de sacrifícios, de renúncias pessoais, para estar ao lado dos doentes.

Claro que os média, perante estas palavras, só ouviram preservativo e pronto. Contudo o Santo Padre vai muito mais fundo: fala da humanização da sexualidade, ou seja de olhar para o outro, não como um objecto de prazer, mas sim como um ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus.

E o problema do preservativo, um problema mais fundo do que dos outros contraceptivos, é de que permite criar uma ilusão de uma sexualidade sem quaisquer consequências. Não só é suposto impedir a gravidez, como também as doenças venéreas. Assim, aparentemente, fazer sexo tem as mesmas consequências que dar uns beijinhos.

Ora, neste contexto, de uma sexualidade desregrada e desumanizada, o Santo Padre afirmou que o preservativo pode, em casos específicos, ser uma primeiro passo para a humanização do sexo. Ou seja, a utilização do preservativo pode ser uma tomada de consciência de que o outro não é um mero objecto para dar prazer ou obter dinheiro, mas um ser humano. Pode ser também um passo para reconhecer que o nosso corpo não é apenas um pedaço de carne, mas morado do espírito e que por isso não devemos viver ao sabor do instinto.

Ou seja as declarações do Papa não são uma revolução ou uma contradição do que o Santo Padre disse anteriormente. São simplesmente um aprofundamento.

Nestes assuntos convém sempre ler o que o Papa disse realmente e ajuizar com clareza as suas palavras em vez de nos ficarmos pelo soundbytes dos jornais.

sexta-feira, novembro 19, 2010

Harry Potter e os Talismãs da Morte.

Quarta-feira à meia-noite fui ver o novo filme do Harry Potter. Antes de tudo devo dizer que sou um fã dos livros de J.K. Rowling. Aquilo que mais me atrai nestes livros é a humanidade das personagens.

Aos longos dos setes livros somos confrontados com várias personagens, todas elas profundamente humanas. Personagem que tem amigos e inimigos, que amam e odeiam. Personagens que são heróicas e personagens mesquinhas. De tal maneira que é possível conhece-las. Ao fim de ler os livros já sabemos que Harry é reactivo e tem um complexo de herói; que Ron é bruto, desajeitado e inseguro; Sirius é temerário e orgulhoso; Hagrid é leal; Snape retorcido; etc.

E com a humanidade de cada uma das personagens que se joga a luta entre o bem e o mal. Cada um tem a possibilidade de escolher. Não há simplesmente bons e maus, mas pessoas que colocadas diante de circunstâncias excepcionais tem que arriscar a sua liberdade.

De todos os livros o meu preferido é o sétimo: Harry Potter e os talismãs da morte. Todo este livro gira à volta da ideia da morte. De um lado temos Voldemort, que recorreu aos feitiços mais negros para fugir à morte. Do outro Harry, vivo pelo sacrifício da vida da sua mães. E no confronto deste dois não ganha o mais poderoso, mas aquele que está disposto a entregar a sua vida para salvar os amigos. Não é um “poder” especial que derrota o mal. Mas o sacrifício de um inocente para a salvação dos outros.

É por este livro ser tão bom, tão bonito que o filme me enerva. Não que o filme seja muito mau, é simplesmente mediano. Toda a história se resume a cenas de acção ou a cenas sentimentais. Nunca há um momento onde aquilo que acontece seja levado mais fundo.

O livro é uma obra belíssima, sobre o que é verdadeiramente o amor e sobre o sacrifício. O filme é um chachada sentimental para entreter adolescentes.

quinta-feira, novembro 18, 2010

Manifesto CL

Crise: que resposta?

O desgoverno das contas públicas; a politização da administração pública que, de forma cada vez mais capilar, vai perdendo a sua competência, isenção e sentido de serviço; a instrumentalização da educação; uma administração da justiça degradada e espelho da falta de um ideal autêntico. O nosso país atravessa um momento grave, que se exprime no difundir do desânimo e numa indignação que toma sempre os outros por objecto.
Ao mesmo tempo, o diálogo político é marcado pela superficialidade e pela falta de interesse pelas pessoas. Há um multiplicar de sinais da perda de efectiva liberdade e uma diminuição do sentido da política como serviço ao bem comum.
Facilmente reduzimos esta circunstância a algo que nos é externo e estranho, de que nos podemos lamentar e distanciar. E uma posição ética acaba por se confundir com a ilusão de que podemos pelo menos salvar um canto de realidade, uma espécie de condomínio fechado onde fosse possível construir um pequeno mundo mais justo e moral.
Mas chega-nos uma voz humilde e forte, que nos indica um caminho muito diferente: “Diante desta situação do mundo e da Igreja em que nós participamos, a nossa única estratégia – diz o Papa – é a conversão”.
A situação actual ajuda-nos a posicionar-nos diante desta questão sem iludir que o que está em causa é a nossa própria mudança, como sublinhou o Papa: o que é necessário, para cada um, é “uma viagem ao centro de si mesmo e ao cerne do cristianismo para reforçar a qualidade do testemunho até à santidade.”
Não nos detenhamos no mal-estar e na acusação de insuficiência – dos outros e nossa – que é fonte de vazio e de insatisfação. É possível uma posição de trabalho e de responsabilidade pessoal, que se torna visível aos nossos olhos através do testemunho de tantas pessoas que à nossa roda não baixam os braços, e das obras que contra ventos e marés continuam a construir na sociedade. Ponto fundamental no actual quadro de dificuldades económicas é a disponibilidade para poupar e partilhar de forma exigente e radical.
Todos estamos convidados a responder ao desafio e a viver a missão que nos deixou o Papa ao despedir-se do nosso País: Continuemos a caminhar na esperança!


COMUNHÃO E LIBERTAÇÃO


Novembro 2010

sábado, novembro 13, 2010

Pax America!


Os europeus em geral padecem de um anti-americanismo primário. Com a aproximação da cimeira da NATO isso torna-se cada vez mais evidente. E não é apenas a esquerda, dividida entre estalinistas saudosista e outra gente defensora do estatalismo, que não gosta dos EUA. Mesmo as pessoas de direita têm uma tendência snob para desprezar a América.

Com a típica altivez de fidalgo arruinado os europeus vêm os americanos como uns novos-ricos. Aliás o intelectual europeu só vê filmes europeus, só lê livros escritos por europeus e toma a generalidade dos americanos como analfabeta.

Mas sobretudo, o que realmente irrita os europeus, é a mania dos americanos de que são polícias do mundo. A soberba com que os americanos, que tem pouco de duzentos anos de história, se propõem resolver as questões internacionais, muitas das quais se prologam há séculos, deixa os europeus fora de si.

E com alguma razão. De facto os americanos não têm história. Nos seus duzentos anos nunca sofreram uma revolução, nunca foram invadidos, nunca tiveram um império. Entre Washington e Obama o sistema político americano manteve-se quase inalterado. Por isso muitas vezes falta-lhe a capacidade de compreender os conflitos internacionais. Olhando para o último século parece que cada vez que a América derrota um inimigo cria outro.

Contudo, apesar de todos os seus defeitos, a única razão pela qual os europeus podem ter opiniões sobre a América é a América. Porque enquanto os franceses, os alemães e todos os outros se entretêm a atacar a América, esta vai defendendo o Ocidente. Não só as suas fronteiras, mas também toda a Europa. E pagam a conta: quer em dinheiro, quer em sangue.

Porque a verdade é que da II Guerra Mundial até hoje a Europa perdeu todo o seu poder bélico. Hoje nenhum país europeu se encontra em condições de travar uma guerra. Qualquer estado pária está tendencialmente mais bem equipado para a guerra do que a Inglaterra ou a França.

Por isso, eu só me juntarei ao coro contra os EUA no dia em que houver quem os substitua. Até lá, posso não gostar deles, mas como sou bem-educado, agradeço a quem me faz o favor de me guardar as costas.

sexta-feira, novembro 12, 2010

Fossem Ricos! - II

Uma amiga minha, em resposta ao meu post Fossem Ricos, diz-me que percebe que o Estado fazendo cortes também os faça no ensino privado. Deu-me como exemplo o apoio as universidades privadas que acha injustificado.

Em relação a isto digo duas coisas. Primeiro, os cortes feito pelo Governo fazem-no parecer um pouco um grupo de adolescentes de férias no Algarve. Vão gastando o dinheiro todo em álcool e tabaco. Quando percebem que o dinheiro está a acabar, vão comendo menos e pior e continuam a gastar o dinheiro em saídas à noite. Quanto o dinheiro acaba, pedem mais dinheiro aos pais. Este dão do dinheiro, eles gastam um pouco menos em copos (mas mais do que deviam) e continuam a comer mal.

Assim está o nosso governo. O dinheiro acabou, cobram mais impostos, pedem mais dinheiro emprestado mas continuam a construir estradas, dar Magalhães e a sustentar empresas públicas com pouca utilidade. Ao mesmo tempo cortam na saúde, na educação e nos salários e sobem impostos.

Eu percebia estes cortes se o governo se comportasse como uma dona de casa sensata que corta primeiro nos cereais, no leite com chocolate e só depois nas explicações.

A educação, juntamente com a saúde, é a última coisa a cortar. Primeiro corta-se naquilo que, dando jeito, não é essencial. Estradas, computadores, motoristas, artes, cimeiras internacionais. Se de facto for preciso mais cortes e não houver mais onde cortar, aí sim corta-se na educação.

Em segundo lugar, cortando-se na educação o critério deve ser o da utilidade e não se é privado ou não. Percebo que de facto há universidade a mais, mas se calhar mais vale cortar nos cursos que onde não há saída do que dizer “corta-se nas privadas”. A maior parte dos alunos de psicologia são apenas futuros desempregados que nos custam muito dinheiro.

Os 70 milhões de euros que o Governo vai cortar no apoio ao ensino privado são a escolas criadas por privados em locais onde não há escolas públicas. Não são um luxo, são uma necessidade.

O problema não é que o Governo corte no apoio ao ensino privado. Se de facto for mesmo preciso que o faça. O problema é que este corte é feito numa base ideológica: não por uma necessidade mas para destruir o ensino privado e reforçar o peso do Estado na vida dos portugueses.

quarta-feira, novembro 10, 2010

Eu encontrei Cristo.

(Nós estavamos junto da bandeira cor-de-laranja do Colégio de São Tomás)


Este fim-de-semana fui a Santiago de Compostela ver o Santo Padre. Assim que soube que o Papa ia a Espanha comecei a preparar a ida com uns amigos meus. Arranjamos dois carros e partimos Sexta-Feira.

A viagem foi boa e correu tudo bem. Contudo, não pude deixar de pensar porque razão ia eu fazer esta peregrinação. A verdade é que só a vi a cabeça do Papa quando o Santo Padre passou a Porta Santa e que assisti à missa num ecrã gigante sem perceber metade da homilia. Por isso, que razão fiz 1000 km num fim-de-semana?

A resposta: para ir ao encontro do Papa. Porque mesmo sem o ver, mesmo se o ouvir, a presença do Papa é presença de Cristo. Fale bem ou mal, seja bonito ou feio, o Santo Padre é a pedra sobre a qual Cristo escolhe construir a Igreja.

Por isso, vale a pena fazer mil quilómetros num fim-de-semana. Não pelo discurso que posso ler no site da Santa Sé (o que recomendo vivamente que façam), não pelas imagens que podia ver em casa. Mas para ir ao encontro de Pedro.

E a verdade é que voltei mudado. Não tive nenhum momento de revelação interior, nem de euforia. Mas ir ao encontro do Papa satisfez-me profundamente. Foi como estar em casa: não havia nenhum outro sítio onde preferisse estar.

E de facto, neste três dias reparo que mudei. Rezei mais, fui mais à missa e até estudei o texto da Escola de Comunidade. E isso deixou-me contente. Claro que sou um mísero pecador e que por isso posso fazer um qualquer disparate mal acabe de escrever estas linhas. Mas para mim esta foi a beleza da minha peregrinação: não foi subjectiva. A mudança não partiu de um qualquer sentimento, mas de uma exigência do meu coração. Posso cair amanhã, mas nem que passem mil anos posso negar que encontrei Cristo no Sábado.

Partidocracia.

Umas das maiores deficiências do nosso sistema político são os círculos eleitorais plurinominais. Ou seja, para círculo eleitoral existem x deputados. O número de deputados é calculado através do método de Hondt consagrado na Constituição.

Claro que o problema é mais profundo do que os círculos eleitorais plurinominais. O problema é ainda agravado por os candidatos a deputados serem escolhidos pelas direcções dos partidos e pelo facto de ser possível substituir um deputado eleito por um outro que esteja presente na lista de candidatos aquele círculo.

Isso leva a que muitas vezes os partidos apresentem cabeças de lista que nem sequer colocaram a hipótese de serem deputados. Estão na lista meramente para angariar votos. Por isso quando votamos nas eleições legislativas não sabemos em quem votamos.

O nosso sistema desvirtua completamente a democracia. No fundo quem escolhe os deputados são os líderes partidários eleitos mais ou menos democraticamente. Ao povo só cabe dizer quantos dos escolhidos da direcção irão ocupar o seu lugar em São Bento.

Ora, como os deputados não dependem dos seus constituintes mas da direcção do partido acaba por ser a esta que eles respondem. Nenhum deputado na hora de votar tem que pensar no povo, mas todos tem que pensar no "partido".

Esta é uma das razões porque a nossa AR é bastante inútil. Em Inglaterra e nos Estados Unidos, onde existem círculos uninominais, os candidatos não são escolhidos pela direcção do partido, mas sim pelos membros do partido do seu círculo. Isto dá-lhes uma grande independência que garante que o poder legislativo controla de facto o poder executivo.

Se os cidadãos não têm possibilidade de punir um deputado incompetente (por muito maus que um deputado seja se for cabeça de lista no Porto em Lisboa por um dos partidos parlamentares acaba por ser eleito) então estes têm carta branca para pensar apenas no partido.

O actual sistema no fundo acaba por funcionar como uma partidocracia onde o povo tem pouco ou nada a dizer. Ficamos assim dependentes do Presidente da República. O problema é que o menos mau dos candidatos tem provado aquilo de que é capaz: nada.

terça-feira, novembro 09, 2010

"The inherent vice of capitalism is the unequal sharing of blessings; the inherent virtue of socialism is the equal sharing of miseries".

Hoje o PCP pediu na Assembleia da Republica que não se cortasse nos apoios ao ensino superior. O problema do PCP, tal como do BE, é que não querem que se corte em lado nenhum. Que não se corte no ensino, na saúde, nos salários, na função pública. Por outro lado não querem que se aumente os impostos, nem a idade da reforma, nem que se flexibilize o regime laboral.

Para a esquerda a solução é sempre a mesma: taxar mais os ricos e a banca. O problema é que os ricos já são mais taxados. E acho muito bem que o sejam. Os impostos são o preço que se paga por viver em sociedade. Contudo, se aumentam os impostos sobre que tem mais rendimento é provável que estes deixem de querer ter mais dinheiro ou que saiam do país. Assim não se produz riqueza, nem se cria trabalho. As pessoas até podem ter mais serviços do Estado, mas não tem como se sustentar.

Não cabe ao Estado procurar a igualdade entre ricos e pobres. O Estado deve garantir a igualdade perante a lei e a dignidade da vida humana. Porque a história já demonstrou que o igualitarismo não só não acaba com a pobreza como destrói a riqueza.

Ter dinheiro não é um crime, nem um pecado. Nada que entre no homem o polui, mas sim o que sai do homem diz Nosso Senhor. O dinheiro em si mesmo é neutro. Por isso não é justo penalizar quem, através de trabalho e mesmo da sorte, conseguiu enriquecer.

A solução para a crise não passa por mais Estado. Mais Estado significa mais impostos (pois o país não tem uma mina de dinheiro), mais impostos significa menos riqueza. A solução não passa por taxar ainda mais os ricos. A solução passa por menos Estado e mais liberdade.