sexta-feira, novembro 05, 2010

Fossem ricos!

A crise tem-se vindo a demonstrar um hipótese brilhante não para aligeirar, mas para reforçar o poder do Estado. Com a desculpa de que é preciso poupar o governo, em vez de reduzir as parcerias pública-privadas ou desmantelar uns quantos institutos públicos, vai cortando no apoio que dá as instituições privadas que prosseguem fins públicos.

Primeiro revogou a devolução do IVA das IPSS. Agora vai cortar, ainda mais, o apoio às escola privadas (ver noticia do Público). A pouco e pouco o poder do Estado sobre os portugueses vai-se tornando cada vez maior. E a crise tem-se demonstrado a desculpa perfeita para o crime perfeito: nesta altura protestar contra cortes na despesa é quase sacrilégio.

E assim o ensino e a caridade vão passando para as mãos do Estado. O Estado (esse ser abstracto e omnipresente) chama a si o poder de educar e sustentar os portugueses que menos possibilidades de defesa têm.

E se um pai não quiser ter o filho educado pelo Estado? E se um velho não quiser ser sustentado pelo Estado? Olha, que fosse rico!

terça-feira, novembro 02, 2010

Um Contra o Outro, Deolinda.



Anda, desliga o cabo,
que liga a vida, a esse jogo,
joga comigo, um jogo novo,
com duas vidas, um contra o outro.

Já não basta,
esta luta contra o tempo,
este tempo que perdemos,
a tentar vencer alguém.

Ao fim ao cabo,
o que é dado como um ganho,
vai-se a ver desperdiçamos,
sem nada dar a ninguém.

Anda, faz uma pausa,
encosta o carro,
sai da corrida,
larga essa guerra,
que a tua meta,
está deste lado,
da tua vida.

Muda de nível,
sai do estado invisível,
põe o modo compatível,
com a minha condição,
que a tua vida,
é real e repetida,
dá-te mais que o impossível,
se me deres a tua mão.

Sai de casa e vem comigo para a rua,
vem, q'essa vida que tens,
por mais vidas que tu ganhes,
é a tua que,
mais perde se não vens.

Sai de casa e vem comigo para a rua,
vem, q'essa vida que tens,
por mais vidas que tu ganhes,
é a tua que,
mais perde se não vens.

Anda, mostra o que vales,
tu nesse jogo,
vales tão pouco,
troca de vício,
por outro novo,
que o desafio,
é corpo a corpo.

Escolhe a arma,
a estratégia que não falhe,
o lado forte da batalha,
põe no máximo o poder.

Dou-te a vantagem, tu com tudo, eu sem nada,
que mesmo assim, desarmada, vou-te ensinar a perder.

Sai de casa e vem comigo para a rua,
vem, q'essa vida que tens,
por mais vidas que tu ganhes,
é a tua que,
mais perde se não vens.

Bem Aventurados.

Este Domingo foi atacada a Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro em Bagdad. Embora não haja número conclusivos, é certo que morreram mais de cinquenta pessoas neste ataque.

Embora só agora os nossos media, ainda que timidamente, tenham aberto os olhos para este problema, a violência contra os cristãos no Iraque é uma constante. Este talvez tenha sido o ataque mais grave mas não foi de todo o primeiro. Em 1987 viviam no Iraque 1,4 milhões de cristãos no Iraque. Agora são no máximo 600 mil, muitos dos quais desalojados. De 1,6 milhões de refugiados iraquianos, cerca de 40% são cristãos. Desde o principio da ocupação americana já foram mortos dois mil cristãos.

Ou seja, em 23 anos passaram a existir menos 800 mil cristãos no Iraque. Desses sabemos que 640 mil são refugiados. Mas quando falamos da perseguição à Igreja no Iraque podíamos falar do Paquistão, da Índia, do Vietname, na China, do Sudão, de partes da Nigéria, da Costa do Marfim, etc.

Hoje, no ano de 2010, a Igreja ainda é ameaçada em boa parte do mundo. Existem em todos o mundo milhares de pessoas que são perseguidas apenas pela sua fé. Homens e mulheres que vêm as suas vidas em perigo, que são postos na cadeia, cujos os templos são destruídos por professarem a sua Fé em Nosso Senhor Jesus Cristo. E o ocidente, nascido do cristianismo, continua a ignorar este povo mártir.

A esquerda caviar lança movimentos cívicos para defender todas as maiorias perseguidas excepto esta. Os estados ocidentais defendem os direitos de todos, excepto os dos cristãos. Resta a consolação dada pelo o Evangelho de ontem: "Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa"

segunda-feira, novembro 01, 2010

"A glória de Deus é o homem que vive".

Hoje celebrámos a Solenidade de Todos os Santos. Ou seja, este é o dia em que a Igreja recorda todos aqueles que, tendo partido já deste mundo, já vêm a Deus face a face.

Alguns destes conhecemo-los. São-nos apontados pela Igreja como testemunho de santidade e como intercessores junto do Pai. Contudo existe uma multidão incontável de desconhecidos que já se encontram na Glória de Deus. Hoje é o dia em que a Igreja se confia a todos eles.

E depois deste dia a Igreja celebra o dia de Fiéis Defuntos. O dia em que rezamos por aqueles que ainda se encontram no purgatório á espera de entrar na Glória Celeste.

Neste dias tem-se escrito muito sobre a substituição destas festas por essa importação anglófona que é o Halloween, a noite das Bruxas. E a indignação é mais do que justa. De facto é ridículo um mundo onde os príncipes encantados são cobarde e os ogres heróis. Um tempo onde se esquece a fé em nome de um suposto racionalismo, para depois se celebrar superstições. Pelos visto é saloio venerar os santos, mas é normal idolatrar vampiros.

Contudo parece-me que perdemos demasiado tempo a falar do Halloween. Está certo que dizemos mal dele, mas mesmo assim damos-lhe muita atenção. De tal a maneira que nos esquecemos daquilo que realmente interessa: que apesar de todas a estupidez humana fazemos parte de uma história de dois mil anos. Dois mil anos de homens e mulheres que são para nós testemunhas da Glória de Deus aqui na terra. E são esses que hoje celebramos.


Tea Party.



O movimento "Tea Party" é um movimento político norte-americano nascido em 2009 que da oposição a Barack Obama, mas que tem como pano fundo a oposição ao crescimento do Estado.

O Estado Unidos da América, ao contrário da Europa continental, tem uma forte tradição de defesa das liberdades individuais contra o Estado Federal. Enquanto na Europa em geral o poder local "provêm" do Estado, nos EUA o Estado Federal só tem o poder que os estado lhe concederam. Assim se explica, por exemplo, a forte oposição de muitos americanos a um sistema de saúde universal. Para muitos dos americanos isto é conceder ao Estado mais poder e logo, tirar a possibilidade de cada um decidir da sua vida.

Aliás o nome Tea Party vem da Revolução do Chá de Boston, quando os colonos americanos assaltaram e destruiram os carregamento de chá, protestando contra os impostos cobrados pela coroa Inglesa.

Claro que este movimento está recheado da boa retórica americana. Muito patriotismo, muito sentimentalismo saloio, malta vestida à cowboy. Isto para os media snobs europeus é o equivalente a admitir que os apoiantes deste movimento são todos extremistas cristãos que odeiam meio mundo.

Mas a verdade é que o Tea Party arrisca-se a eleger vários congressistas e, acima de tudo, poderá vir a ter uma palavra decisiva na escolha do candidato republicano a presidência. Claro que os nosso jornais gostam sempre de dizer que estes extremistas não tem hipótese porque afastam os moderados. Mas já o diziam sobre o Bush e aposto que também o dizeram sobre o Reagan.

sábado, outubro 30, 2010

Calista a Escultora Grega, Jonh Henry Newman, Aletheia.




A Aletheia publicou agora o livro Calista a Escultora Grega do Beato João Henrique Newman. Este livro é o romance histórico passado na província africana do Império Romano, no ano 250 dC.

O livro tem como pano de fundo a perseguição aos cristão lançado pelo imperador Décio. Após alguns anos de relativa paz a Igreja encontrava-se na altura amolecida. Muitos dos cristãos de então eram-no por convicção familiar. Faltavam bispos e padres e os cristãos começam a comportar-se como os pagãos.

O livro conta a história de uma pequena cidade, próxima de Cartago, onde quase não existem cristãos. Contudo a perseguição lançado por Décio e a paixão de Calista por um cristão levará ao renascimento da igreja africana. Tudo fruto do encontro com um homem: São Cipriano, bispo de Cartago.

A coisa que mais me comoveu neste livro foi a maneira clara como o Beato Newman explica que a fé nasce do reconhecimento de um presença. Um presença que corresponde de tal maneira que negar essa presença é pior do que a morte.

Embora escrito há 155 anos este livro podia ter sido escrito hoje, para nós. Num tempo que reduz a fé a um sentimento vale a pena ler esta grande mestre que o Santo Padre elevou aos altares.

Nazareth Morning, Bay Ridge Band.



She breaks the darkness with a hope no one has seen
Beneath her heart there grows a grace that has not been
Nazareth Morning
Has come to be
The dawn that eyes have longed to see

Carpenter's lady with a baby at her breast
A humble court where kings and shepherds are her guests
Nazareth Morning
Bethlehem Star
A light for people near and far
Dawn grows to Day, Day comes to stay
The dark of sin won't dim the way
The darkness lied and tried to hide the day in death
Yet in her cries there lies a hope in every breath
Nazareth Morning
Calvary Night,
Can never stop the truth and light

Another morning brings an unexpected light
Another Mary sees an unexpected sight
Nazareth Morning
Rolls stones away
No night can end this endless day

Nazareth Morning
Will always be
The dawn that longs to set us free

Nazareth Morning
Will always be
The dawn that longs to set us free

Nazareth Morning
Will always be
The dawn that longs to set us free

"Et Verbum caro factum est et habitavit in nobis" (Io, 1, 14)

quinta-feira, outubro 28, 2010

Discurso de apresentação das credenciais de Sua Excelência o Embaixador de Portugal junto da Santa Sé

Beatíssimo Padre,

Constitui para mim a maior honra pessoal e profissional apresentar hoje a Vossa Santidade as cartas credenciais pelas quais Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa achou por bem acreditar-me como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário junto da Santa Sé.

Tenho igualmente a honra de entregar a Vossa Santidade as cartas que dão por terminadas as funções do meu distinto antecessor, o Embaixador João da Rocha Páris, que durante vários anos aqui representou Portugal com toda a dedicação.

Desejo, ao apresentar-me, cumprir em primeiro lugar o grato dever de transmitir a Vossa Santidade as respeitosas saudações do Chefe de Estado Português, assim como a expressão da sua profunda admiração e os seus muito sinceros votos de bem-estar.

É-me igualmente muito grato poder ser, nesta oportunidade, o intérprete da arreigada devoção filial do Povo Português à Igreja e a Vossa Santidade, sentimentos estes que Vossa Santidade pôde confirmar por ocasião da memorável visita com que honrou, há meses, o meu País.

Mantêm-se bem presentes na memória de todos os múltiplos gestos de carinhoso e paternal afecto para com Portugal e para com os Portugueses que Vossa Santidade, tanto na mencionada visita como ao longo de todo o seu Pontificado, tem dispensado. Recordo a propósito, com emoção, a canonização de Frei Nuno de Santa Maria.

Como Vossa Santidade tão sabiamente recordou ao chegar a Lisboa no dia 11 de Maio passado, «logo nos alvores da nacionalidade o Povo Português voltou-se para o Sucessor de Pedro esperando na sua arbitragem para ver reconhecida a sua própria existência como Nação». Mais tarde, um Predecessor de Vossa Santidade honrou Portugal, na pessoa do seu Rei, com o título de Fidelíssimo. Assim tem continuado, felizmente, a ser ao longo de quase nove séculos. Vossa Santidade, na homilia que pronunciou a 13 de Maio último no Santuário de Fátima – que tantos designam como o Altar do Mundo – dignou-se referir o meu País como «Nação gloriosa». Estou certo de que os Portugueses continuarão a ser dignos de tão generosa confiança.

Julgo igualmente de sublinhar o facto de que, onde houve ou ainda há uma presença histórica ou cultural portuguesa resultante da extraordinária expansão da lusitanidade, iniciada no período das grandes descobertas marítimas, também aí hoje se encontra viva e activa a presença da Igreja de Roma. A língua portuguesa e a cristandade têm efectivamente mantido fortes laços nas cinco partes do mundo.

Portugal, do mesmo modo que a Santa Sé, orienta a sua actuação nas relações internacionais pelos princípios da independência nacional, do respeito pelos direitos humanos, da igualdade entre os Estados, da solução pacífica dos conflitos e da cooperação internacional como elemento fundamental para o progresso e desenvolvimento da humanidade. Estes princípios encontram-se inscritos na Constituição Portuguesa. Acresce que a valiosa experiência cultural da nossa longa história tem sido determinante para a capacidade universalista que temos para procurar dialogar com todos os povos, estabelecer pontes e contribuir para gerar consensos. Lembro, a propósito, que o Povo Português se orgulha, legitimamente, de ter sido o primeiro na Europa a abolir a pena de morte.

Vossa Santidade tem apelado, com insistência, para que não seja menorizado na vida pública o papel da religião e para que os dirigentes mundiais busquem os meios de encorajar a todos os níveis o diálogo entre a fé e a razão. É-me grato frisar que Portugal não apenas participa mas dirige superiormente as iniciativas no quadro da Aliança das Civilizações, fórum que busca activamente o indispensável e urgente diálogo intercultural.

Recordou também Vossa Santidade ao visitar Portugal, a propósito das comemorações de um século da proclamação da República no meu País, que a viragem republicana abriu, na distinção entre Estado e Igreja, um espaço novo de liberdade para a Igreja que as duas Concordatas, de 1940 e de 2004, formalizaram.

É minha convicção, Beatíssimo Padre, que a Concordata actualmente em vigor constitui um instrumento plenamente apto a assegurar um relacionamento bilateral conforme não só com as nobres tradições e profundos laços históricos que evoquei mas também com os relevantes interesses comuns contemporâneos em frutuosas condições de estabilidade e de respeito mútuo. Irei trabalhar sempre nesta perspectiva com total empenho enquanto ocupar as tão honrosas funções que hoje inicio.

Termino, solicitando a Vossa Santidade que paternalmente se digne abençoar Portugal, os Portugueses e os seus Governantes e, se tal ouso pedir, a Embaixada, a minha Família e eu próprio.

Manuel Fernandes Pereira

Analgésico.

As negociações entre o PSD e o PS relativas ao Orçamento de Estado falharam. Pelos visto acertaram tudo, excepto o corte de mais 400 milhões de euros na despesa.

De novo se levanta um coro de vozes a pedir responsabilidade. É urgente que se aprove o orçamento, mesmo que seja mau. Primeiro porque se o orçamento não for aprovado Portugal não vais conseguir crédito lá fora. Em segundo, porque se o OE chumbar o governo demite-se e assim passa a batata quente a outro.

Em relação à primeira objecção, de que mais vale um mau orçamento do que nenhum, parece-me tonto. Se a ausência de orçamento pode levar a uma crise de confiança dos mercados internacionais em relação a Portugal, um mau orçamento pode ter o mesmo resultado daqui a um ano. Com a diferença que daqui a um ano o Estado estará mais endividado e os portugueses mais pobres. A técnica do chutar para a frente e aguentar mais um bocadinho tem sido usado pelo governo socialista desde há cinco anos com o resultado que agora vemos.

Quanto ao segundo orçamento, eles que fizeram porcaria agora aguentem-se, é criminoso. Para além de criminoso é passar um atestado de incompetência ao PSD. É criminoso porque parte do cálculo político em vez do serviço do país. Tanto faz que o país se afunde, desde que o PS se afunde com ele. Por outro lado, é também uma maneira de dizer que o PSD não consegue lidar com esta crise (da qual de facto tem bastante menos culpa que o PS) por isso mais vale deixar queimar Sócrates mais um bocado e esperar até Maio por eleições.

Parece-me que a solução mais dolorosa (chumbar o orçamento) é, neste caso, a mais eficiente. Aprovar este orçamento como está é como tomar analgésico quando se tem uma dor de dentes sem ir ao dentista. Quando acabar o analgésico a dor fica ainda pior.

segunda-feira, outubro 25, 2010

Discurso de Margaret Tatcher no Congresso do Partido Conservador de 1983.



One of the great debates of our time is about how much of your money should be spent by the State and how much you should keep to spend on your family. Let us never forget this fundamental truth: the State has no source of money other than money which people earn themselves. If the State wishes to spend more it can do so only by borrowing your savings or by taxing you more. It is no good thinking that someone else will pay—that "someone else" is you. There is no such thing as public money; there is only taxpayers' money.[fo 3]

Prosperity will not come by inventing more and more lavish public expenditure programmes. You do not grow richer by ordering another cheque-book from the Bank. No nation ever grew more prosperous by taxing its citizens beyond their capacity to pay. We have a duty to make sure that every penny piece we raise in taxation is spent wisely and well. For it is our party which is dedicated to good housekeeping—indeed, I would not mind betting that if Mr. Gladstone were alive today he would apply to join the Conservative Party.

Protecting the taxpayer's purse, protecting the public services—these are our two great tasks, and their demands have to be reconciled. How very pleasant it would be, how very popular it would be, to say "spend more on this, expand more on that." We all have our favourite causes—I know I do. But someone has to add up the figures. Every business has to do it, every housewife has to do it, every Government should do it, and this one will.

É isto que o nosso governo não percebe ou não quer perceber. Sempre que gasta dinheiro impede as pessoas de criar riqueza. O dinheiro que o Estado gasta é nosso. Por isso deve ter cuidado e critério quando o gasta. Tem que assegurar que gasta apenas no essencial e com a máxima eficiência. Não é cobrando mais dinheiro que o Estado vai resolver os problemas do país, mas gastando menos.

Quem cria riqueza são as pessoas. As pessoas que trabalham, que investem, que criam. São as empresas que criam realmente trabalho. Não por altruísmo, mas porque precisam de mão de obra. São as pessoas que criam riqueza, não por bondade, mas porque precisam de gastar o seu dinheiro para viver.

Por isso o Estado que se limite a assegurar que todos são iguais perante a lei e que todos tem a possibilidade de uma vida digna. Porque tudo o que gasta é nosso, porque tudo o que gasta não gastamos nós.

Por favor, não nos façam mais favores!

O Público de sábado dava conta que o Orçamento de Estado tirava benefícios fiscais às igrejas, mantendo os da Igreja Católica. Esta notícia tinha direito a estar na capa e a uma página inteira dentro do jornal. Digo isto porque falamos do mesmo jornal que "ignorou" uma procissão com 150 mil pessoas no Porto.

Os benefícios de que o jornal fala e que foram retirados é o direito de o IVA sobre bens adquiridos para o culto, assim com o de construções ligadas a essas igrejas ser reembolsado.

A primeira coisa que me ocorre perante a indignação do Público é de a justiça é tratar de forma igual o que é igual e de forma diferente o que é diferente. O Estado não pode nem deve limitar a possibilidade de um individuo praticar a sua fé e de dar testemunho desta publicamente. Não pode nem deve limitar o direito de os crentes se organizarem e de livremente praticarem a sua fé de maneira organizada e pública. E nisto não deve haver diferença entre a Igreja Católica e os restantes.

Contudo, na relação entre o Estado e a Igreja Católica enquanto agente social é evidente que há diferença para outras religiões. Porque a Igreja Católico tem um peso social e cultural em Portugal que ultrapassa em muito o peso de todas as outras religiões juntas. Não apenas pelo número de católicos praticantes, muitíssimo superior ao de outras religiões, mas pelo seu trabalho na sociedade portuguesa que é ainda maior que o seu número de crentes. O número de portugueses que é sustentado, tratado ou educado pela Igreja supera em muito o número de católicos praticantes. Querer tratar a Igreja Católica e, por exemplo, a IURD da mesma maneira é o mesmo que tratar da mesma maneira a fundação Calouste Gulbekian e a sociedade filarmónica de Santiago-do-Escoural.

Mas o mais irritante desta medida é que ela não foi tomada para favorecer a Igreja. É impossível que tomou esta medida não soubesse que alguém ia reparar nela. Para além disso a diferença entre o IVA que as restantes igrejas pagavam e o que vão pagar agora não há de ser muito. Não se deve comparar, por exemplo, com o que se vai gastar com a cimeira da NATO.

A única utilidade nesta medida é causar a discórdia entre as diversas igrejas e permitir que mais tarde se retira também o apoio à Igreja Católica sem causar ondas. Os socialista começam a ficar especialista em fazer favores à Igreja que ninguém lhes pediu e que raramente trazem alguma utilidade.

quinta-feira, outubro 21, 2010

"Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes", Tg 1, 17




Li no Público de ontem que Leonardo Boff participou num comício da candidata do PT à presidência do Brasil. Para quem não sabe, Boff é um dos principais promotores da Teologia da Libertação que defende que a missão da Igreja é a justiça social.

Quando li a notícia pensei logo em escrever sobre o Boff. Pensei em mil discursos para fazer contra a Teologia da Libertação, que tenta adaptar o cristianismo ao marxismo. Depois percebi que era um erro: não vale a pena um discurso contra uma teoria mas sim um facto.

O oposto de Boff, que passou a sua vida a construir uma teoria para defender os pobres mas que de facto nada fez por eles, é Madre Teresa de Calcutá. Esta pequena freira albanesa nunca quis saber de discursos ou teorias. Nunca escreveu grandes obras de teologia ou manteve acesso debates. Contudo as suas Irmãs Missionárias da Caridade fizeram mais pelos pobres que todos os discurso de Boff e do que toda as teorias católico-marxistas.

Porquê? Porque Madre Teresa não partiu de uma ideia, mas de um amor a Cristo. O seu amor pelo próximo não nasce de uma qualquer teoria do que os pobres precisam, mas de um enamoramento por Cristo que se transforma em paixão pelo próximo.

Por isso é que os seus acto, sustentados pela fé que nasce do encontro com Cristo, são eficazes. Porque só Cristo é que a fonte da caridade e de justiça. A obra de Madre Teresa não nasce da sua genialidade mas da sua humildade. Da humildade de quem compreende que Cristo é que é o Senhor da História. Por isso em vez de iniciar uma doutrina para mudar o mundo, Madre Teresa começou a fazer o acto mais inútil que se possa imaginar: tirar moribundos das ruas de Calcutá e dar-lhes o mínimo de comodidade para que morressem confortáveis. O resultado está à vista.

Contra todas as teorias de Boff ergue-se facto: as suas acções sem fé nada fizeram; a fé de Madre Teresa, comprovada pelas acções, salvaram milhares de pessoas.

terça-feira, outubro 19, 2010

"Os cristãos aos leões!"

Saiu hoje numa Público uma peça sobre a situação dos cristãos no Paquistão. Esta reportagem, motiva pela visita de Monsenhor Sebastian Shaw bispo auxiliar de Lahore, revela as dificuldades das comunidades católicos atravessam num país de 175 milhões de habitantes e onde 95% são muçulmanos.

Embora em teoria o Paquistão seja um país onde todos são iguais diante da lei a realidade é que todos os anos há cristãos mortos e igrejas destruídas perante a impassividade das autoridades. Segundo informa o bispo há mulheres cristã que são violadas e convencidas a casarem-se com os violadores e existem cada vez mais conversões forçadas.

A situação piorou piorou com a entrada em vigor da lei anti-blasfémia que prevê penas de prisão para aqueles que blasfemarem contra Alá ou Maomé, bastando para a acusação a queixa de um muçulmano sem necessidade de testemunhas.

Mas não pensemos que estas situações são um exclusivo do Paquistão. Podemos encontrar por todas a Ásia e parte de África perseguições mais ou menos activas aos cristão, com ou sem a ajudado do Estado. Na China continua a haver presos religiosos, assim como no Vietname. Na Índia as autoridades continuam indiferentes aos constantes abusos levados a cabo por hindus contra cristão. Na Arábia Saudita, assim como noutro países islâmicos, a conversão ao cristianismo continua a ser punida com pena de morte. No Sudão o governo continua a apoiar as milícias que perseguem os cristãos, situação que já causou mais de 300 000 mortos e milhões de refugiados.

Não estou a falar de coisas do século passados, mas de acontecimentos que estão a acontecer agora perante a total apatia da comunidade internacional. Não esqueçamos nós os nossos irmãos mártires e saibamos viver a altura da graça que nos é dada de podemos dar testemunho da nossa fé sem recear a prisão ou a morte.

sexta-feira, outubro 15, 2010

A Vergonha do PS.

Foi hoje apresentada a versão preliminar do Orçamento de Estado para 2011. Só para não esquecermos, o Orçamento de Estado é apresentado por um governo que tenciona começar a construir um TGV em 2011, que autorizou o aumento de salários dos administradores de empresas públicas para o dobro, que construiu ou renovou 100 escolas este ano, que (por ajuste directo), encomendou milhares de computadores para crianças, por um governo cuja as medidas foram ineficazes para abater a despesa pública e tem sido incapaz até agora de travar o desemprego.

Este mesmo governo propões passar o IVA de 6 para 23% dos seguintes produtos:

- Leites achocolatados, aromatizados, vitaminados e enriquecidos

- Bebidas e sobremesas lácteas

- Refrigerantes, sumos e néctares de fruto ou de produtos hortícolas, incluindo xaropes de sumos, as bebidas concentradas de sumos e os produtos concentrados de sumos

- Utensílios e outros equipamentos exclusivamente ou principalmente destinados ao combate e detecção de incêndios

E de 13 para 23% destes produtos:

- Conservas de carne e miudezas comestíveis

- Conservas de moluscos, com excepção das ostras

- Conservas de frutas ou frutos, designadamente em molhos, salmoura ou calda e suas compotas, geleias, marmeladas ou pastas

- Conservas de produtos hortícolas, designadamente em molhos, vinagre ou salmoura e suas compotas

- Óleos directamente comestíveis e suas misturas (óleos alimentares);

- Margarinas de origem animal e vegetal

- Aperitivos à base de produtos hortícolas e sementes

- Aperitivos ou snacks à base de estrudidos de milho e trigo, à base de milho moído e frito ou de fécula de batata, em embalagens individuais

- Flores de corte, folhagem para ornamentação e composições florais decorativas. Exceptuam-se as flores e folhagens secas e as secas tingidas

- Plantas ornamentais.

Ou seja o preço do pequeno almoço de uma família que os filhos bebam leite com chocolate, onde todos comam pão com manteiga ou marmelada pode chegar a custar mais 17%. Uma família que se dê ao luxo de comer atum com feijão frade, bacalhau com grão, salsichas com ovo e batata pagará por boa parte da refeição mais 10% em 2011.
Isto numa altura em que a taxa de desemprego está ligeiramente acima do 11%, o IVA já foi aumentado e a comparticipação dos remédios vai diminuir.
Daqui posso tirar uma de duas conclusões: 1 O governo quer de facto que o orçamento seja chumbado para ter razão para se demitir. Assim passa o problema para as mãos de outros, tendo uma desculpa para o descalabro que provavelmente se seguirá ao chumbo e passando a culpa para outros. 2 O governo não tem força, capacidade ou engenho para arranjar soluções (ou diminuindo a despesa ou aumentado a receita de forma menos danosa para os consumidores mais pobres) e por isso recorre a uma solução "fácil" para tentar tapar o buraco que criou.

Se uma destas duas conclusões for correcta não posso deixar de me lamentar o estado a que o Partido Socialista chegou. Embora eu, com os meus escassos anos, nunca tenha sentido grande afeição pelo PS não posso deixar de reconhecer que teve no seu meio grande políticos e estadistas. Homens que de várias maneiras tentaram servir o país o melhor que sabiam e podiam. Tudo isto para ver o seu partido transformado num antro de politiqueiros e caciques, que durante 5 anos se foram entretendo a gastar dinheiro e a fazer engenharias sociais para dar um ar de modernidade ao país. O resultado? Um país em ruínas e a beira do abismo que eles não querem e não sabem governar.

quinta-feira, outubro 14, 2010

Parabéns Lady Tatcher.




Faz hoje 85 anos que nasceu Margaret Tatcher. Lady Tatcher foi a primeira mulher a ser primeiro-ministro de Inglaterra (e a única até agora) e governou durante 11 anos (1979 - 1990).

No plano interno talvez a sua maior vitória tenha sido a derrota dos sindicatos. Em 1979 os sindicatos eram senhores da economia inglesa. A sua influência tinha começado no primeiro governo trabalhista (1945 quando Clement Attlee derrotou o herói da II Grande Guerra, Sir Winston Churchill) e tinha levado a economia inglesa à ruína. O estado mantinha várias indústrias (automóveis, comunicações, energia, aviação) com graves prejuízos visto ser impossível fazer ajustes que levassem à supressão de postos de trabalho.

A vitória de Tatcher começa quando consegue derrotar a greve dos mineiros. Após 5 anos a "amealhar" carvão e a transportá-lo para junto das centrais eléctricas o governo permitiu o fecho de 20 minas que davam prejuízo. Durante um ano o sindicato dos mineiros fez greve, tentado fazer do governo refém. Foi uma luta entre o dinheiro dos sindicatos e as reservas de carvão do governo. Ganhou o governo.

No plano internacional a maior conquista da primeiro-ministro foi a queda do comunismo. Em conjunto com Ronald Reagan, Tatcher lutou sempre por um ocidente fortemente armado, capaz de enfrentar a União Soviética. Defendeu a democracia e a liberdade. Atacou o comunismo que considerava uma ideologia maligna pois tentava anular a liberdade do homem e substitui-la pelo Estado.

E aqui chegamos talvez ao ponto mais importante. Para Margaret Tatcher a questão não era meramente ideológica, não era uma luta entre capitalismo e socialismo. Partia de um ponto concreto: a coisa mais importante é o homem. O Estado nunca se pode substituir à liberdade humana. Deve garantir todas as condições para que cada pessoa tenha uma existência digna, mas não criar um sistema de tal maneira perfeito que os homens já não precisem de ser bons. Tal sistema estaria condenado a transforma o homem num animal.

Fazem-nos falta políticos assim. Pessoas como Margaret Tatcher (e Ronald Reagan): com coragem para lutar pela verdade e pela liberdade.

quinta-feira, junho 10, 2010

Dia do São Camões.

No dia 5 de Outubro de 1910 foi proclamada a República. O golpe de estado que haveria de levar à sua implementação começou na madrugada de 3 para 4 de Outubro.


Logo no dia 3, no seguimento da morte de Miguel Bombarda atribuída aos jesuítas (quando de facto fora morto por um paciente), começou a perseguição popular ao clero. No dia 4 foram mortos dois padres lazaristas. No dia 5 o patriarca resignatário foi preso por populares e levado à presença de Afonso Costa. Nesse mesmo dia o bispo de Beja teve que fugir do país para salvar a vida.

No dia 8 de Outubro o governo manda parar com as perseguições populares. Para evitar abusos são dadas ordens À polícia para prender todos os padres que andem na rua. Começa então a perseguição legislativa.

Dos vários documentos legais que dizem respeito à Igreja há um que alterou profundamente a cultura portuguesa e que hoje passa despercebido: a abolição dos feriados religiosos.

No dia 12 de Outubro de 1910 foram abolidos todos os feriados religiosos. Só o dia Natal sobreviveu, mas agora apelidado de Dia da Família Portuguesa.

Contudo, para não aborrecer o povo, o governo provisório não se limitou a abolir os feriados. Criou novos feriados e novas festas para fazer esquecer as festas religiosas. Regra geral estas novas festas incluíam grandes paradas e desfiles, tentando recriar as festas populares que festejavam os santos.

Assim foi criado o feriado do 1º de Dezembro, para fazer esquecer a Imaculada Conceição. O dia do nascimento de Nossa Senhora, 8 de Setembro, passou a ser o dia da mãe. O de São José dia do pai. Para substituir a festa da Anunciação (25 de Março) o dia da Árvore.

É neste contexto que nasce o dia de Camões. Como se tinha abolido a festa de Santo António criou-se o dia de Camões. O 10 Junho era um festa republicana desde o ano do centenário do centenário do poeta. Passou então a ser festa nacional, com direito a desfile cívico e discurso das autoridades. O povo nunca aderiu a estas novas festividades e gozava com os desfiles dizendo que era a procissão do São Camões.

Percebo que com tempo esta questão importância. No Estado Novo o 10 de Junho ganhou relevância não como dia de Camões, mas como uma oportunidade de festividades patrióticas. Hoje já não sou este feriado já não tem uma carga anti-clerical como caiu no esquecimento dos republicanos, sendo festejado sobretudo por velhos nacionalistas.

Mesmo assim não festejo o 10 de Junho. Não chateio, não tomo posições morais, não faço causas no facebook. É feriado e eu aproveito. Contudo não adiro a festas maçonicas. Festejar por festejar espero pelo Santo António.

quarta-feira, junho 09, 2010

A um metro do chão.

A questão doutrinal

No i do fim-de-semana

Uma das coisas que mais gosto de fazer com os meus filhos é influenciá-los. Deliro. Ter a oportunidade de explicar, com tempo, o meu ponto de vista, a minha versão dos factos, a minha ideologia, as minhas crenças a pessoas inocentes, sãs, crédulas, civilizadas e inteligentes que não querem discussão mas sim informação, é fantástico. Um sossego. Eu não discuto, ensino. Experimento argumentos, ensaio raciocínios e conto histórias elucidativas das minhas verdades aos meus fiéis seguidores, que me fixam com olhos esbugalhados. Também não imponho nada; explico o óbvio. E claro que eles acreditam piamente em tudo o que lhes digo: se também acreditam quando lhes garanto que a sopa já arrefeceu, não duvidam quando digo que "ajuda humanitária turca" é com aspas. Uma das inúmeras vantagens destas prelecções domésticas e familiares, além das óbvias, que são benéficas para a sociedade em geral, é que me obrigam a dominar e a rever os temas, a melhorar a argumentação para poder explicar as minhas teses com maior clareza. Como tenho de ensinar os conceitos mais elementares, estou constantemente em reciclagem doutrinal. Por exemplo, quando um deles me pergunta o que é um socialista, tenho de lhes dar a definição de imposto, de empresas públicas, de Mário Soares, etc. (sim, é verdade, as crianças de hoje crescem sem Mário Soares nas suas vidas). Claro que a conversa só acaba quando eles ficam devidamente esclarecidos das consequências do socialismo. "Ah, mas isso é manipular as crianças." Claro que é! E só tenho até à adolescência deles para o fazer. Mas cá eu chamo a isto educar.

"O sangue dos mártires é frumento dos Cristãos."


Foi beatificado este Domingo em Carcóvia o Padre Jerzy Popieluszko. Este sacerdote polaco foi preso, torturado e morto em 1984 pelos comunistas polaco.

Capelão de um remota aldeia polaca, foi apoiante do movimento Solidariedade. Defendeu sempre a liberdade contra a opressão comunista e ensinou que o mal só se combate com o bem. A sua trágica morte serviu de testemunho para todo o povo polaco.

O Beato Jerzy Popieluszko é um dos milhares de mártires do século XX. Que o seu testemunho nos eduque a nós no amor a Cristo.

Rogai por nós Beato Jerzy Popieluszko,
para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

Andrea Bocelli

terça-feira, junho 08, 2010

«"Terrível é a palavra 'non'": o sim de Manoel de Oliveira» por Padre João Seabra, DN, 31/05

Sentado no Centro Cultural de Belém com um milhar de representantes do mundo da cultura, da ciência e da arte, escutei, com espanto e comoção, o discurso "simples e breve", como ele próprio o anunciou, que Manoel de Oliveira dirigiu ao Papa Bento XVI na manhã do dia 12 de Maio. A intervenção é como o cinema de Oliveira: expressão de uma procura de sentido pessoalíssima, dum desejo de verdade incansável, do reconhecimento intenso e livre da presença do Mistério na vida dos homens e do cosmos. Oliveira não se entregou a especulações teóricas: deu um autêntico e despretensioso testemunho de vida, exposto na linguagem directa, enxuta e não analítica a que o realizador habituou quem lhe conhece o estilo: franco, quase desabrido e aparentemente naïf.

Depois de agradecer o "muito honroso convite", enunciou o título da sua curta exposição, "Religião e Arte", e disparou, colocando "éticas" e "artes" lado a lado, enquanto fruto das religiões, que "procuram encontrar explicação para a existência humana e a sua inserção concreta no cosmos". A essa procura, universal no tempo e no espaço, irrompe na História uma resposta inimaginável: "Universo e Homem, criação de um ser transcendente, colocam-nos problemas inquietantes, para cuja solução o Verbo que se fez carne em Cristo nos trouxe insuperáveis Graças divinas." Este foi o mote claro e corajoso da sua reflexão: a colocação da hipótese cristã como possibilidade real para a vida e para a criação artística.

Ratzinger afirmou, já há anos, que "a única, a verdadeira apologia do cristianismo pode-se reduzir a dois argumentos: 'os santos' que a Igreja produziu e 'a arte' que germinou no seu seio" (V. Messori, Diálogos sobre a Fé, Lisboa, Verbo, 1985, p. 107). Como que em intuitiva resposta, Oliveira saudou o Papa sublinhando a fecundidade da fé cristã na criação estética. Afirmou a intimidade original das artes e das religiões, umas e outras "voltadas para o homem e o universo, a condição humana e a essência divina"; na experiência religiosa como na expressão artística se manifesta "a memória da criação e a saudade do paraíso". Neste contexto chamou à Bíblia o "tesouro inesgotável da nossa cultura europeia": uma referência que ecoa como antagónica às recentes afirmações de José Saramago. Em seguida relembrou dois dos seus filmes, O Acto da Primavera (1963) e Cristóvão Colombo, o Enigma (2007), em que representou figuras de anjos: no primeiro caso, como personagem específica desse popular Auto da Paixão, sinal da presença do divino entre os homens; no segundo, como "prévia configuração do Destino" de Portugal, radicando no cristianismo, numa frase sintética e desafiadora, a identidade da História pátria e a sua história pessoal: "[Sou] pertencente à família cristã, de cujos valores comungo, e que são as raízes da nação portuguesa e de toda a Europa, quer queiramos quer não […]."

Mas o momento mais confessional e provocador da sua intervenção foi aquele em que Manoel de Oliveira se referiu ao drama humano da dúvida e da falta de fé. Retomando as palavras do Padre António Vieira ("terrível palavra é o non"), que deram o título ao seu filme de 1990 (Non ou a Vã Glória de Mandar), Oliveira disse: "Acossados pelas especulações da razão, sempre se nos levantam terríveis dúvidas e descrenças, a que se procura opor a fé do Evangelho, que remove montanhas." Perante a tremenda hipótese da negação, concluiu, com a convicção de quem fala de um caminho trilhado na primeira pessoa: "O non retira toda a esperança, que é a última coisa que a natureza deixou ao homem", esse homem que "caminha na esperança, apesar de todos os negativismos". A dinâmica humana é afirmativa, é um sim: esta é a certeza que Oliveira afirma. A escolha teórica e teorizada que a nega não corresponde ao dinamismo que leva o ser humano a esperar e a desejar: desejar viver, desejar amar e ser amado, desejar criar, desejar ser feliz. Essa dinâmica de afirmativa certeza encontra um testemunho irrecusável naquele homem de 101 anos, de olhar vivo, quase infantil, com uma capacidade criativa invulgar e uma liberdade de pensamento e acção que fazem dele uma criatura sui generis e incómoda no universo em que se movimenta.

Por isso, a maior injustiça que se lhe poderia fazer seria a de retirar às suas palavras simples - tanto as ditas como as escondidas nas entrelinhas - o peso e a consistência de uma vida assim lutada e vivida, com esse visível gosto e essa radical liberdade que sempre recusou ideologias e sempre se deixou fascinar pelo humano e pelo seu desejo de infinito.