segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Parece que vai começar a luta a sério na questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Chamo-lhe assim, não como cedência ao lobby gay que pelos visto usa a mesma expressão, mas porque me parece a forma mais precisa de descrever a questão.

Porque de facto não é o casamento dos homossexuais que está em discussão. Os homossexuais podem casar-se à vontade, tal como têm liberdade para celebrar qualquer contrato, desde que respeita as regras do casamento.

Mas sobre a questão em si, parece-me que existem dois pontos importantes.

O primeira é a homossexualidade em si mesmo. E esta questão é diferente da do casamento. Uma pessoa que tenha tendências homossexuais e as pratique está a cometer um pecado. A prática de actos homossexuais é um erro que ofende a Deus e sobre isto não tenho dúvidas.

Contudo, temos sempre que distinguir o pecado do pecador. Diante do pecado não há tolerância, mas diante do pecador só pode haver caridade. Quanto mais não seja, porque pecadores somos todos.

Mas não é por isto que eu sou contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. O pecado é da relação do homem com Deus e só deve ter valoração jurídica quando vai contra a vida em sociedade.

Por isso, mesmo sendo pecado, a homossexualidade não é, nem deverá ser, crime ou ilícito. O que cada um faz na sua vida privada (desde que não viole a liberdade dos outros) não diz respeito ao Estado.

Mas o casamento entre pessoas do mesmo sexo é um assunto diferente da posição moral sobre a homossexualidade.

Até agora a questão sobre este assunto tem sido sempre posta ao contrário. Até agora têm-se perguntado "porque não hão duas pessoas adultas do mesmo sexo poder casar-se?".

Mas do ponto de vista jurídico a questão é claramente feita ao contrário. "Porque razão há o Estado de regular a vida privada de duas pessoas?".

No caso de duas pessoas de sexo diferente que querem viver juntos a sua vida, com comunhão de leito, tecto e mesa isto é claro. Porque esta união é essencial para a sociedade. A sociedade está dependente de haver família. Não só pela continuação da espécie, mas também por causa da educação.

O primeiro lugar onde uma pessoa é educada é na família. É a instituição onde de facto as pessoas mais facilmente crescem de modo saudável.

Claro que há excepções, mas não para elas que o legislador legisla.

Em relação a duas pessoas do mesmo sexo e à relação entre eles, não existe razão nenhum para o Estado a tutelar. O Estado não tem que saber das preferências sexuais de cada um ou do modo como as pessoas decidem viver.

Se dois homens querem viver juntos e partilhar a cama, é um assunto que não diz respeito ao Estado. Assim como não deve proibir, também não deve tutelar.

Nos próximos tempos haverão muitos debates sobre esta questão. Os que estiverem a favor desta ideia tentaram puxar sempre para a emoção e para a perseguição.

Devemos manter a calma, nunca perder a caridade e falar apenas sobre esta questão, sem deixar que eles puxem para questões ao lado.

O Papa e o Holocausto, Nuno Rogeiro, JN, 06/02/09

Falar neste lugar de horror, neste sítio onde se cometeram crimes indizíveis contra Deus e contra o Homem, é quase impossível. E é especialmente difícil e perturbante para um cristão, ainda mais Papa vindo da Alemanha".

Pouco mais de um ano depois do fumo branco que, em Roma, o anunciara nas sandálias de Pedro, o sucessor de João Paulo II falava assim, de mãos e rosto cerrados, no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau.

Bento XVI foi sempre claro sobre o assunto do genocídio. Referiu, no seu profundo discurso de Auschwitz, a intenção nazi de, ao exterminar os judeus, eliminar a origem do monoteísmo, e recriar o mundo, numa paródia demoníaca da religião. Encimou o preito de dor com uma reflexão pessoal: "isto não nos produz ódio; mostra-nos antes o terrível efeito do ódio".

Parece, pelo menos, injusto, alegar agora, a propósito de declarações soltas de prelados imprudentes, que o Vaticano mudou. E que mudou, sobretudo, de posição face à destruição sistemática de inocentes e civis, em nome da raça, ou de uma ideia política. Como aconteceu nos consulados totalitários, "comunistas" ou "nacionalistas", a Leste e Oeste, na Europa ou na Ásia, na África ou algures, durante o século XX.

A polémica, que recorda a peça de teatro de Rolf Hochtruth, "O representante", de 1963, coloca outra vez em primeiro plano a atitude do Vaticano face ao Holocausto da Segunda Guerra Mundial.Foi nessa altura que se criou a imagem de um Pio XII silencioso, senão cúmplice, com o extermínio de milhões. Mas personalidades esclarecidas, como o jesuíta Robert Graham, entre muitos outros, há vários anos que restauraram o equilíbrio na revisitação histórica.

Não se pode esquecer, na verdade, o enorme esforço de resgate, salvamento, intercessão ou protecção de judeus, um pouco por toda a Europa, por obra da igreja católica. Não se pode esquecer a rede do Padre Weber e do cardeal Pacelli, a actividade da Organização S. Rafael, a intervenção junto da Eslováquia, em 1941, contra a aprovação do "Código Judeu". Nem a actividade do bispo Preysing, em Berlim, de monsenhor Rotta, na Hungria, de Monsenhor Cassulo, na Roménia.
Não se pode esquecer a pastoral corajosa do arcebispo Saliege, de Toulouse, em 1942, denunciando "os factos terríveis" nos campos de Noe e Recebedom, afirmando que "os judeus são nossos irmãos".

Não se pode esquecer o arriscado apoio do Vaticano à organização judaica DELASEM, de Génova. Não se pode esquecer a Encíclica Summi Pontificatus, de 1939, poderosa denúncia das doutrinas de "pureza rácica".

Não se pode esquecer que, onde pôde mudar as coisas, ou influenciá-las, o Vaticano sempre falou. E que, onde se calou (como o fez o Comité da Cruz Vermelha, ou o Conselho Mundial das Igrejas), executou muitas vezes custosas e arriscadas operações, clandestinas, de auxílio e transporte.

Não se pode esquecer, por fim, que uma coisa é a denúncia antes da guerra (quantos o fizeram?), e outra é falar sobre a ocupação, onde o que importa é resgatar vidas, e não pregar sermões exemplares, que, como na Holanda, só aumentaram a repressão.

Não se pode esquecer, ainda, que pelo menos 3000 padres católicos foram executados pelo Reich, só na área do agora Benelux.

E não se pode esquecer que, numa altura de trevas, em que a intolerância surge até das dificuldades da "luta contra o terrorismo", tem sido a Santa Sé uma das vozes qualificadas, em nome da decência e da Humanidade.

Contra todos os holocaustos, alertando antes.

Para que não se repitam.

in JN

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Alienação

Hoje fui sair à noite. Sair à séria, para uma discoteca. Convidado por uns amigos meus fui, de forma entusiástica diga-se, infiltrar-me nesse mundo desconhecido para mim que é o das discotecas.

Não foi de todo a primeira vez que entrei numa discoteca, mas também não precisaria de todos os dedos que possuo para contar as vezes que entrei neste género de local.

Contudo hoje, mais do que de todas as outras vezes, chocou-me lá ir. Não porque as pessoas fossem selvagens, tivessem a drogar-se ou fazer sexo em público. Estavam todos apenas a dançar. Mas as marteladas musicadas ao som dos quais as pessoas se abanavam serviam apenas para alienar. Não alienar apenas das responsabilidades, das chatices, dos problemas, mas alienar de toda a realidade. Toda aquele ambiente estava montado para que ninguém tivesse um pensamento.

Achei aquilo propriamente agonizante. Uma quantidade de pessoas bestializadas, deixando-se arrastar por um ritmo frenético que respondia aos nossos instintos mais básicos.

Quando estava a falar disto com a Teresa ela disse-me para reparar como as pessoas se olhavam. E de facto as pessoas olhavam para as pessoas como se não esperassem nada delas. Estavam ali, davam um abraços, um apertos de mão, dançavam. Mas de facto não estavam em relação com aqueles que tinham diante. Os outros estavam apenas no mesmo espaço.

Mas aquilo que mais me horrorizou foi perceber que também eu sou assim. Não com musica martelada aos ouvidos, porque não sou fã de dançar. Mas sou assim com os livros, os jogos de computador, as conversas infindáveis sobre coisas nenhuma.

E aqueles que hoje vi têm uma razão que eu não tenho. Eles pensam que ninguém lhes prometeu nada. Não esperam nada, porque não sabem que tudo lhes foi prometido.

Mas eu sei que Cristo me prometeu tudo. Que Ele se ofereceu como significado de cada momento da minha vida. Por isso, que aqueles que ali estavam simplesmente a divertir-se não esperem nada daquilo que fazem é natural. Que eu, num só momento que seja da minha vida, não esperar tudo então não estou a ser fiel aquilo que encontrei.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

2 anos.

Faz hoje, dia 11, dois anos sobre o referendo à lei do aborto, que abriu as portas ao PS para legalizar a morte de bebés até as 10 semanas de gestação.

Foi um dia doloroso para todos aqueles, como os escribas deste blog, que participaram na campanha pelo Não ao longo de meses. Mas se nesse dia a batalha política foi perdida, a luta continuou.

Continuou porque para nós o aborto era e é muito mais que uma questão politica. As mulheres em dificuldade são mais do que uma bandeira política, útil para atrair votos.

Para nós o aborto é um flagelo que todos os anos faz milhares de vítimas: bebés que morrem, mães que desesperam, famílias que se separam. Por detrás de cada aborto há um história dramática, de pessoas concretas. E por isso, no que toca ao aborto, a luta é clara. Há que informar e tentar por todos os meios apoiar as mulheres grávidas que estão em dificuldade. Para que ninguém possa dizer que abortou porque não encontrou quem a ajudasse.

Para além disso a luta pelas questões da vida (que é inseparável da defesa da família) não se resume ao aborto. Cada vez mais a dignidade da pessoa humana e da família é atacada: a utilização de embriões em experiências, a eutanásia, o divórcio facilitado, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a imposição de uma educação sexual depravada nas escolas, tudo questões que estão em cima da mesa neste momento.

Por isso é preciso continuar a lutar. Mas também há que recorda a razão porque lutamos, pois de nada vale ao homem ganhar o mundo se perder a sua alma. Lutamos porque amamos a vida, a nossa vida em concreto. Amamos a nossa vida porque nos foi dada por Alguém que nos quer bem. Por isso peçamos que nesta lutamos nos mantenhamos sempre como humildes servos do único que nos pode dar a Vida verdadeira.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Família vs. Estado

Saiu no DN de hoje um artigo que relata um aumento no número de casais não divorciados que procuram o tribunal para resolver questões dos filhos.

Até há revisão do Código Civil de 1966 após a Constituição de 1976, o legislador via o casamento do ponto de vista funcional. O homem tinha certos deveres a mulher tinha outros, tendo em atenção as diferenças entre os sexos, assim como a própria realidade social do casamento.

Assim por exemplo, em última instância o homem decidia o nome do filho, pois era cabeça de casal. A mulher decidiria a escola do filho, pois era ela quem tinha a responsabilidade da sua educação.

Contudo, após a revolução de Abril, o legislador constitucional decidiu tornar inconstitucional (e bem) qualquer discriminação com base no sexo. Os nosso políticos, dominados por um sede de igualitarismo e democratização, acharam por isso que também o casamento devia ser democrático e igualitário.

Claro que isto levou a que nos casos em que os pais não se decidissem sobre os filhos o Estado, através dos Tribunais, pudesse penetrar na intimidade da vida famíliar e decidir o que era melhor para as crianças, sem ter sequer que dar importância à opinião dos pais.

Daí termos chegado a esta situação ridicula, em que pais pedem ao Tribunal que decida o nome dos filhos ou o colégio em que eles devem ser matriculados.

A família é o último reduto contra o poder controlador do Estado. O Estado que decide o que se estuda na escola, o que se come, o que se bebe, nada pode diante da família que educa em liberdade os seus filhos. Por isso é natural que a lei abra todas as portas possíveis para que o Estado domine a família. Cabe às famílias terem a inteligência de as manterem fechadas.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Morreu Eluana Englaro

Morreu hoje a Eluana Englaro.

Comunicado do Vaticano: "Que o Senhor a acolha e perdoe todos os que a conduziram até este ponto".

Para esperar é preciso ter recebido uma grande Graça. Esta Graça é a Fé (d. Giussani).




sábado, fevereiro 07, 2009

Um pai

O Santo Padre decidiu levantar a excomunhão aos quatro Bispos que Monsenhor Lefebvre ordenou para continuar a sua obra na cismática Fraternidade Sacerdotal São Pio X.

Antes de mais convém esclarecer que estes bispos, embora tenham sido ordenados sem autorização do Papa, são bispos, pois foram sagrados por outro bispos. Contudo estavam excomungados e continuam suspensos das suas funções episcopais.

Para além disso, o levantamento das excomunhão destes bispos não fez com que a FSSPX fosse integrada na Igreja. A Santa Sé já deixou claro que esta decisão não marcou o fim do cisma, mas apenas um começo para esse fim.

Mas obviamente que bastou este acontecimento para que os media ficassem em pulvurosa. Rapidamente apareçam notícias e entrevistas a falar do "conservadorismo" de Bento XVI.

A juntar a esta polémica vieram a lume umas declarações de um deste bispos, Dom Richard Williamson a diminuir o número de mortos do Holocausto. Obviamente que a televisão que fez tal entrevista esperou pelo dia em que foram levantadas as excomunhões para transmitir a mesma.

As respostas não se fizeram esperar. O chefe dos rabis de Israel cortou relações com a Santa Sé, a Chanceler alemã acusou o Papa por este não condenar tais declarações, vários bispos progressistas criticaram o Santo Padre e alguns clérigos menos esclarecidos chegaram a falar em resignação.

Os media adoraram esta pequena intriga e montaram uma feira. Nunca tinha visto os nossos jornais falarem tanto sobre a Igreja como neste últimos dias.

Mas nós não nos devemos deixar confundir. O Santo Padre, lembrando a sua Paternidade em relação a estes filhos pródigos, decidiu dar um primeiro passo para que eles voltem a casa. Não se trata de concordar com eles, não se trata voltar atrás, trata-se apenas de caridade de uma pai para com uns filhos orgulhosos.

Mas é óbvio, e sobre isso a Santa Sé foi clara, que para a FSSPX volte a estar em comunhão com a Igreja precisa de reconhecer o Concílio Vaticano II. A caridade não é branquear um erro, é perdoar o erro de quem se arrepende.

O problema da FSSPX é que defende a tradição por si só, sem compreender que a tradição só têm valor quando está em comunhão com o Papa e os bispos. Podem citar todos os tratados teológicos que quiserem, mas enquanto não viverem em comunhão com o Papa, cabeça da Igreja, estão fora da Igreja.

É verdade que do ponto de agenda mediática talvez a decisão do Papa não tenha sido a melhor. Mas como o papel do Papa é converter a almas e não conseguir "boa publicidade" a Igreja, pouco me interessa o que os jornais acham. Eu fiquei contente ao ver, uma vez mais, a grande paternidade e caridade do Santo Padre Bento XVI.

SEMPER FIDELIS!

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Eluana Englaro II

Amigos,


Como saberão, está em curso em Itália o processo para matar Eluana Englaro. Faço-vos um pequeno resumo da situação e um juízo sobre o caso, que nasce do estudo que fiz para a cadeira de Direito Constitucional Europeu, mas sobretudo decorre da constatação de um facto: a vida, a minha e a tua, é um dom misterioso, que não pedimos mas que nos foi dado, e que a seu tempo assume formas e circunstâncias que não prevemos (e isto vale para todos).


A Eluana sofreu um desastre em 1992 e desde essa data que se encontra naquilo a que habitualmente se chama Estado Vegetativo Permanente (EVP). Este conceito, tal como outros, não passa de isso mesmo: de um conceito. É uma construção teórica para definir o estado físico e psicológico de pessoas que se encontram aparentemente afastadas da relação com o mundo exterior, devido a graves lesões cerebrais.


Na prática, Eluana não está ligada a nenhuma máquina para respirar; devido à sua condição precisa unicamente que lhe dêem comida e bebida porque ela sozinha não consegue alimentar-se e hidratar-se. Necessita naturalmente de todos os cuidados de higiene, mas sobretudo, do amor que durante 15 anos lhe foi gratuitamente oferecido pelas freiras da casa de repouso em Lecco (perto de Milão).


Um dia normal na vida de Eluana é igual ao de muita gente: acorda de manhã, passeia, come, bebe, dorme à noite. É mesmo assim. Não está submetida a nenhuma terapia.


Em causa estão portanto dois problemas: o primeiro técnico, o segundo humano.

A nível técnico – que não vos maço muito, prometo! – há que não confundir o conceito de obstinação terapêutica (não tenho a certeza que o nome técnico em português seja este) com o conceito de alimentação e hidratação. São diferentes os casos em que uma pessoa está submetida a duros tratamentos e terapias invasivas que, além de não melhorarem a condição clínica dos pacientes, os colocam ainda numa situação de sofrimento físico. Isto é obstinação terapêutica. E é proibida em muitos países – justamente, a meu ver – e sancionada igualmente pela legislação internacional (vide Carta Europeia dos Direitos Humanos). Não é este o caso de Eluana.

Os juízes italianos assumiram que alimentar e hidratar Eluana equivalia a este conceito. Erraram. Mas mais ainda, colocaram a problemática ao nível do testamento biológico (uma pessoa manifesta a sua vontade em caso de se encontrar numa situação clínica crónica ou terminal), baseando-se em presumíveis testemunhos de familiares e amigos; estes contaram que Eluana era uma pessoa “alegre e viva” (cito uma das sentenças), e que por mais de uma vez terá dito “eu nesse caso preferiria morrer”, estando de boa saúde.


Neste momento Eluana está numa clínica diferente, longe das freiras que muito a amaram durante todos estes anos, e hoje começaram a diminuir a alimentação e a hidratação. Está previsto que nos próximos dias comece a sua agonia que a conduzirá até à morte. Uma morte dura e feia. Vai morrer à fome e à sede.


Faço três considerações finais:


Estamos perante um caso de legitimação legal da morte de uma pessoa inválida. Uma prática legal não é necessariamente uma prática justa.

Matar alguém à fome, ainda que com a autorização de juízes e intelectuais lembra-me inevitavelmente o massacre dos judeus: era tudo legal, estava tudo dentro dos parâmetros.

Se algum dia a minha vida mudar radicalmente e eu ficar num estado em que não seja capaz de vos expressar a minha “vontade”, usem os arquivos deste blog para gritar ao mundo que a minha é vida é minha, e só quero que ma tire quem ma deu. A vida é um mistério, um mistério que precisa de ser vivido para se desvelar um passo, e outro, e outro.


Uma coisa está diante dos nossos olhos, uma única evidência: há um aspecto último da vida que não podemos escamotear, que não podemos reduzir a análises lógicas. Há um aspecto último da vida que é Mistério.


Aquele que me deu a vida, Aquele que me quer aqui e agora, fez-Se carne há 2009 anos, e continua a acompanhar-nos. Durante 15 anos, Cristo esteve presente na vida de Eluana através do amor das freiras que a acudiram; hoje tenho a certeza que Cristo está naquele quarto a sustentar a agonia de Eluana porque Ele não foi poupado à Cruz.


Peço ainda o milagre, mas estou certa que o Pai a acolherá num quarto bem mais luminoso e confortável.


Catas


Ps: O don Pino pediu-nos que rezássemos todos os Angelus nas comunidades pela Eluana, porque “a oração é a nossa comunhão com a alma de Eluana".

Eluana Englaro

Parece que o drama de Eluana Englaro está prestes a conhecer um fim trágico. De há meses para cá que o pai de Eluana, um jovem italiana que há anos que se encontra em estado vegetativo, têm recorrido a todas as instâncias para que seja permito aos médicos cortarem a alimentação e hidratação da sua filha.

A batalha pela vida de Eluana dura há meses, com a Igreja e o Governo italiano a fazerem todos os possíveis para que a jovem não possa ser morta à fome. Do outro lado, o pai e alguns esquerdistas falam em morte digna e têm conseguido apoio dos tribunais.

Obviamente os jornais portugueses têm sido bastante tendenciosos a falar deste assunto, aproveitando para puxar o tema da eutanásia. Mas convém esclarecer desde já um ponto. Aqui não estamos a fala de eutanásia, nem sequer de suicido assistido. A questão não é acabar com o sofrimento de ninguém, ou acabar com uma vida a pedido do próprio. Trata-se simplesmente de matar uma pessoa que não está consciente à fome.

Não digo isto por achar que se fosse eutanásia então já era justo deixar Eluana morrer. Mas porque os nossos jornais têm aproveitado esta história para fazer um campanha "subliminar" por mais um "tema fracturante", abusando claramente do seu papel de informar o público.

Mas voltando ao caso em si. A mim parece-me que antes de todas as questões legais e jurídicas há uma questão moral: a dignidade do homem é imposta pela circunstância ou a vida humana têm um valor em qualquer circunstância? Ou seja, é possível alguém dizer sobre outra pessoa que a sua vida naquelas condições não faz sentido? Para isso era preciso que esse alguém fosse o criador da vida e o seu sentido.

Com que autoridade pode alguém decretar a morte de outro? Acaso somos nós autores da vida, acaso somos resposta para alguém? Não. A resposta para o Homem encontra-se em Deus, que se fez companhia para nós. Nós não buscamos apenas uma resposta ou uma pista de Deus, nós esperamos o próprio Deus.

Por isso, como nos ensina don Giussani, "aquilo que todos os dias para nós seria limite está destina a tornar-se grande, como o olhar de Maria. Maria compreendia que cada condição humana desenvolvia e realizava o desígnio de um Outro. Não o desígnio do nosso coração, mas o desígnio do coração do próprio Deus. Por isso vivereis a vida como um caminho. As dores, tal como a vida, não vos faltará. Mas mesmo quando for cansativo, será a descoberta de um bem verdadeiramente grande."

Por isso nesta hora dramática, onde se joga não só a vida de uma pessoa, mas a própria humanidade de quem está envolvido nesta questão, rezamos para que Deus conceda sabedoria a todos aqueles que neste momento detém poder sobre a vida de Eluana.

P.S.: Sobre assunto vale a pena ler o juízo de Comunhão e Libertação. Disponível aqui.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Yes we can!

O Bom Pastor

Foi hoje a missa de corpo presente do Senhor Dom António dos Reis Rodrigues, Bispo Auxiliar Emérito do Patriarcado de Lisboa. Foi uma missa muito bonito, com muitos dos seus irmãos no episcopado e no sacerdócio presentes, ainda que com pouco povo. A Sé estava composta, mas estava longe de estar cheia.

Há muito para se dizer sobre este santo homem, muito mais do que eu sei ou sou capaz. Confesso que procurei um pouco por todos os cantos "católicos" da net e ainda não encontrei nenhum texto que lhe faça jus. Eu, que só conheci este pastor na sua velhice, também pouco sei dizer.

Relembro só com gratidão a missa do seu 90º aniversário, onde Deus me concedeu a Graça de ficar ao lado do Senhor Dom António, a apoiá-lo quando se levantava e sentava já com grande dificuldade. Nessa altura impressionou-me sobretudo a lucidez e serenidade com que falava. Sempre com grande amor a Deus e fidelidade ao Papa e aos Patriarca.

Dos muitos dados bibliográficos que li, deixo apenas um. Em 1984, quando um grupo de católicos pela vida fizeram uma marcha do Largo do Rato até a São Bento, o Senhor Dom António apareceu, como grande pastor que era, para acompanhar o seu rebanho numa luta que ainda hoje, mas agora já diante do Pastor Eterno, ele acompanha e abençoa.

Que Deus nos mantenha sempre fiéis nesta luta, lembrando e rezando sempre ao Senhor Dom António.

SEMPER FIDELIS!

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Bem vindo a Casa!

O problema do PSD.

A vida não corre bem a Dra. Manuela Ferreira Leite. Por uma lado as sondagens persistem em pôr o PSD abaixo do PS, por outro todos os dias os jornais noticiam uma nova critica de um qualquer militante à presidente do partido. Desde do seu antecessor até aqueles que todos os jornais consideram o seu sucessor, todos têm direito um espaço nos jornais (incluindo a nulidade algarvia que dá pelo nome de Mendes Bota).

Para além disso, nada do que a "Dama de Ferro" portuguesa diz parece ter impacto na imprensa. Nenhuma declaração da senhora dura mais do que uma hora nos cabeçalhos dos jornais on-line. Já os telejornais e restante imprensa parecem só reparar nas suas eventuais gaffes.

Enquanto isso o PS do primeiro-ministro Sócrates vai inventado estudos da OCDE aos mesmo tempo que denuncia cabalas negras contra o seu mestre sem que nenhum jornal dê grande importância a tais questões.

Mas aquilo que me espanta é que as pessoas estão de facto convencidas que a falta de oposição à direita se deve a uma qualquer deficiência política da Dra. Manuela Ferreira Leite.

As pessoas parecem não reparar que os jornais estão amestrados pelo governo e raramente mostram ou escrevem qualquer opinião importante da presidente do maior partido da oposição. Em contrapartida, dão todo o tempo de antena necessário à oposição interna.

O povo português pelos visto acha que é suposto um homem, cujo o único feito político foi ter perdido as eleições do partido para a Dra. Manuela Ferreira Leite, merece mais cobertura mediática do que a presidente em funções.

Já os nosso jornalistas acham a escolha do candidato do PSD à Câmara de Olhão é assunto para ocupar várias página de jornais, com um autarca a bater constantemente na líder do PSD.

O problema do PSD não é a Dra. Manuela Ferreira Leite. Aliás, longe de ser o problema, ela pode de facto ser um boa solução. O grande problema do PSD é que a imprensa está dominada pelo PS. Venha quem vier para o PSD será sempre um alvo a abater.

"Mr. Magorium's Wonder Emporium"




Ontem à noite vi o filme "Mr. Magorium's Wonder Emporium". Confesso que ia preparado para, no máximo, achar o filme indiferente. Quando acabei de ver o filme estava bastante surpreendido.

A história do filme é bastante surreal. Mr. Magorium é um inventor de brinquedos com 243 anos e é dono do "Mr. Magorium's Wonder Emporium", uma loja de brinquedos mágica, onde os brinquedos e a própria loja têm vida. Percebendo que está próximo o dia da sua morte Mr. Magorium contrata um contabilista (um "accountant" uma mistura entre um "account" e um "mutant" segundo Mr. Magorium, que daí para diante falará dele chamando-lhe simplesmente mutante) para pôr as suas contas em dia e assim deixar a loja em testamento à sua gerente.

Para perceber este filme é preciso perceber as personagens. O que realmente importa nesta história não são as circunstâncias, mas o modo como cada personagem se coloca diante destas.

Antes de mais temos o Mr. Magorium, um homem que parece viver completamente for do mundo mas que ao mesmo tempo é mais realista do que todos os outros. Impressionou-me sobretudo a sua serenidade perante a morte. No seu último dia de vida a sua herdeira leva-o a passar um dia fantástico, para no fim lhe dizer: "a vida é tão boa, porque razão há de morrer?". A isto Mr. Magorium responde que sabe que a vida é boa, que gostou de muito do dia, mas que simplesmente chegou a sua hora. Dito isto, vai para a sua loja de brinquedos e morre.

A seguir temos Eric, um excêntrico rapaz de nove anos, coleccionador de chapéus e narrador da história. Eric vê as coisas como só as crianças vêm: como elas são. Para ele é simples. Se a loja faz magia é porque é mágica. Para ele não há um dualismo entre o que acontece e a razão. As coisas são como são.

Chegando a um ponto fulcral da história, quando a loja está a venda, Eric vai oferece-se para a comprar. Se bem que o faz de modo infantil, é ao mesmo tempo profundamente realista e razoável. Oferece-se o cheque que a avó lhe deu no Natal, a sua semanada e um percentagem do lucro da loja.

Ainda dentro das personagens surreais temos Molly Mahoney, compositora, gerente da loja e herdeira de Mr. Magorium. Molly é uma personagem curiosa. Se por um lado se espanta com a Loja e reconheça a magia daqueles brinquedos, reduz toda aquela beleza à pessoa do Mr. Magorium. É como se olhasse para aquele velho excêntrico (mas no fundo mais realista que todos os outros) e dissesse: "isto é bonito, mas para ti. Eu não consigo viver isto". Por isso para ela a morte do inventor de brinquedos é como que o fim daquela bonita história. Como se tivesse tido uma tempo de brincadeira, mas agora fosse preciso viver.

Depois do enterro de Mr. Magorium, Eric encontra Molly a tocar piano num hotel para ganhar a vida. Quando ele lhe diz que ela não pode vender a loja, Molly responde simplesmente que têm que ganhar a vida. Que não pode fazer o mesmo que Mr. Magorium porque ele era mágico.

Por fim temos a personagem "séria": Harry Weston, o Mutante responsável por pôr as contas de Mr. Magorium em dia. O Mutante é o protótipo do homem moderno. Posto diante de todos os "milagres" ignora-os. Não o faz de forma consciente. Simplesmente não repara. Não perde cinco segundos a espantar-se com a realidade.

Mas a verdade é que Harry é um bom homem, só lhe falta uma companhia que lhe ajude a ver. Por isso, só quando Eric e Mahoney se tornam seus amigos é que ele começa a reparar na magia da Loja.
Já Mahoney, tambem por causa da presença dos seus amigos, percebe que aquilo que fazia aquela loja espantosa não dependia do Mr. Magorium. A Loja era mágica, o ponto é se ela o reconhecia ou não. É neste ponto que ela percebe que a sua atracção pelo velho inventor de brinquendo não vinha apenas dele, mas daquilo que de que ele era sinal.

De um modo estranho este filme fez-me lembrar os romances de Chesterton, onde nos cenários mais inverosímeis, acontecem os dramas mais realistas. Embora com algumas cedências (mas poucas) ao "new age" vale a pena ver este filme, pois ele conta-nos como o impossível se faz possível através do testemunho de pessoas reais. Não é um método novo, Nosso Senhor já o usa há 2000 anos.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Harry Potter

Acabei de ver que o Padre Peter Fleetwood, que foi o representante do Papa numa conferência de imprensa que marcava um lançamento de um documento sobre o "New Age", declarou em 2003 que não havia mal nenhum em Harry Potter. Disse ainda que J.K.R. era uma escritora cristã.

Confortou-me bastante ler esta noticia do Zenit, pois sempre achei que a saga de Harry Potter valia a pena ser lida. Muito especialmente o sétimo livro.

Os livro de Harry Potter estão claramente mais próximos de "O Senhor dos Anéis" ou das "Crónicas de Narnia" do que da abundante literatura infantil new age que poluem as livrarias. Não digo que se possa pôr J.K. Rowling ao nível de Tolkien ou Lewis, mas percebe-se que ela claramente foi buscar inspiração a este autores.

A magia no mundo de J.K.R. não têm nada a ver com artes místicas ou com sobrenatural. É um dom que se possui ou não. Aliás, é muito marcada nos seus livros que tenta realizar os seus desejos através de "bruxaria" acaba por perder-se.

Em Harry Potter o problema humano não é resolvido com magia. Apesar de toda a magia existe a morte e o sofrimento. Aquilo que sempre me comoveu neste livros foi a humanidade das personagens. Nos primeiros livros os seu problemas banais: as discussões entre amigos, os dramas com a família, os problemas com os professores, as brigas na escola.

Mas conforme os livros foram evoluindo também as personagens o foram. De tal maneira que acabam defrontadas com o drama da morte e perante a escolha entre o bem e o mal. E em todos estes problemas a magia não entra.

Podemos ver em toda a luta contra Lord Voldemort uma companhia humana, cheia de fraquezas e imperfeições que se deixa guiar por Dumbledore. Um homem grande, não pelo seu poder, mas pelo seu perfeito conhecimento da humanidade de cada um. Uma das coisas mais impressionantes deste livro é ver como o director de Hogwarts consegue de facto ver mais longe.

Por fim, o sétimo livro é muito bom. A ideia de todo o livro é a do sacrifício. Contra a ideologia de um "bem maior" apresenta-se o idealismo de luta pelos seus amigos. De tal forma que no momento final a vitória vêm, não da magia, mas do sacrifício de Harry, que dá a vida pelos seus amigos.

Não digo que Harry Potter não tenha defeitos, ou que não possa levar as crianças a acreditar em magia ou a embarcar numa onda "New Age". Mas isso é o risco que se corre ao dar um livro a uma pessoa: que ela não o compreenda.

A mim parece-me que são livros de facto cristãos. Um livro que ensina que acima de todo o poder do mundo, de todo o poder do mal, está a liberdade do homem que pode sempre escolher o bem, vale a pena dar às crianças.

La nuova Aushwitz - Claudi Chieffo



La nuova Auschwitz

Io suonavo il violino ad Auschwitz
mentre morivano gli altri ebrei;
io suonavo il violino ad Auschwitz
mentre uccidevano i fratelli miei. (3x)

Ci dicevano di suonare,
suonare forte e non fermarci mai,
per coprire l’urlo della morte,
suonare forte e non fermarci mai. (3x)

Non è possibile essere come loro. (bis)

Nel mondo nuovo
che ora abbiamo creato
c’è la miseria,
c’è l’odio ed il peccato. (3x)

Ora siamo tornati ad Auschwitz
dove ci è stato fatto tanto male,
ma non è morto il male del mondo
e noi tutti lo possiamo fare. (3x)

Non è difficile essere come loro. (bis)

Ora suono il violino al mondo
mentre muoiono i nuovi ebrei;
ora suono il violino al mondo
mentre uccidono i fratelli miei. (3x)


Eu tocava violino em Auschwitz, enquanto morriam os outros judeus; eu tocava violino em Auschwitz enquanto matavam os meus irmãos. Diziam-nos para tocar, tocar alto e nunca parar, para cobrir o uivo da morte, tocar alto e nunca parar. Não é possível ser como eles. No mundo novo que agora criámos, existe a miséria, existe o ódio e o pecado. Agora voltámos a Auschwitz, onde nos foi feito tanto mal, mas não foi morto o mal do mundo e todos nós podemos fazê-lo. Não é difícil ser como eles. Agora toco violino para o mundo, enquanto morrem os novos hebreus; agora toco violino para o mundo enquanto matam os meus irmãos.

Dia 27 foi o dia da Memória dos Presos do Holocausto. Hoje, como há 54 anos atrás, milhares de "judeus" morrem todos os dias.

Podemos fingir que a barbaridade do regime Nazi foi um caso isolado. Pode tentar arranjar uma explicação razoável para que não se possa comparar a eliminação sistemática de 6 milhões de judeus com o que acontece nos nossos dias. Mas estaríamos apenas a enganarmos-nos.

No nosso tempo todos os dias são mortas pessoas no Darfur, na Birmânia e em tantos outros países do mundo, enquanto nós tocamos violino para podermos fingir que não está a acontecer.

"Defiance" - "Resistentes"



Segunda-feira fui ao cinema ver o filme "Resistentes". Desde da sua estreia que estava curioso com este filme. Nos trailers nunca tinha conseguido percebido bem a história, tendo apenas apanhado que se passava na Segunda Guerra Mundial na Europa do Leste. Fiquei um pouco desapontado com o que vi.

O filme começa por mostrar a invasão nazi da Bielo-Rússia. No meio da perseguição aos judeus, quatros irmão perdem toda a família e fogem para a floresta. Aos poucos e poucos começa-se a formar um grupo de refugiados, que acaba por se transformar numa autêntica comunidade.

O resto do filme narra a história deste grupo na floresta, como conseguem sobreviver, as alianças com os partizans comunistas, a fome, o frio, a doenças e, sobretudo, a perseguição alemã.

Pelo meio vai-se desenrolando uma complexa relação entre os irmão Bielski. Por um lado Tuvia, o irmão mais velho, quer não apenas sobreviver, mas sobreviver como homens. A ele não lhe interessa combater os alemães, sobretudo se isso significar combater sobre as ordens dos russos comunistas, com quem se alia mas em quem não confia.

Do outro lado temo Zus, o segundo irmão. Briguento, lutador, ferido por ser sempre segundo em relação ao irmão. Por tudo isto acaba por se juntar a brigada Outubro, constituída por russos comunistas que luta activamente e barbaramente contra os alemães.

É o terceiro irmão o único que de facto me pareceu humano (o quarto é uma criança, que vai aparecendo). Sempre fiel ao irmão mais velho, Asael é aquele que mantém sempre a esperança.

O filme irritou-me um pouco, antes de mais porque se junta a infinitude de obras que a pretexto do Holocausto explica como os judeus são bonzinhos e sempre foram perseguidos. Não pondo em causa os milhões de judeus mortos na 2ªGM ou os progroms na Rússia do principio do século, existem maneiras de contar a história sem a transforma num exercício de vitimização. Ao longo da história os judeus foram perseguido e perseguiram. Por isso não vale a pena estar sempre a insistir de como o mundo os tratou mal.

A segunda coisa que me irritou foi o herói Tuvia. Embora seja o líder da Brigada Bielski e a inspiração daquele povo escondido na floresta, é uma personagem vazia. Ele só sabe que não quer ser como os alemães ou os comunistas (um desejo bastante justo) mas não sabe o que quer ser. Não sabe o que propor.

Impõem regras para a vida da brigada, para que os fortes protejam os fracos, acolhe todos os que chegam, organiza tudo para que possam sobreviver. Quando é preciso lutar é heróico. Mas só pensa em sobreviver e em não ser um animal. Não luta para nada, não vive para nada, a não ser por uma superioridade moral em relação aos Nazis.

Para mim o que salva o filme é Asael. E salva-o por uma razão muito simples e objectiva: conhece uma rapariga na floresta e casa com ela. Por isso não o move uma questão ideológica como a Tuvia, ou uma revolta social e fraternal como seu irmão Zus, a ele move-o o amor aquela mulher, que acaba por ser também amor pelos irmãos e pelas pessoas que têm diante.

Enquanto Tuvia tem uma relação de comandante diante das pessoas que comanda, Asael têm sempre uma preocupação de pai, com cada um dos que se junta à Brigada Bielski.

O filme prometia ser bom, mas acabou por ser mais um para juntar à longa lista de vitimização judaica com um pouco de curso motivacional pelo meio.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Conversão




Ontem foi dia da Conversão de São Paulo. Neste ano Paulino a Conferência Episcopal Portuguesa quis marcar esta com uma peregrinação nacional a Fátima, onde estiveram presentes 22 bispos, trezentos padres e dezenas de milhares de fiéis. Infelizmente, devido a afazeres vários, não consegui estar presente ontem em Fátima.

A mim este dia diz-me muito, pois foi nesta festa que eu recebi o Crisma das mãos do Senhor Dom Tomás. Desde aí tambem eu já preparei alguns jovens para o Crisma.

Para além disso, ontem foi com alegria que fui à primeira-comunhão de um dos meus primos.

Conto isto, porque ontem dei por mim na missa espantado com a generosidade de Nosso Senhor, que nos concede tantas graças. Ante demais, como ontem relembrava o senhor padre que fez um belíssima homilias, concede-nos a Graça de estar coporalmente presente na Eucarístia. Mas para além da Eucaristia, os seus dons estão presente de maneira objectiva nos Sacramentos que deixou à Igreja.

Celebrar o dia do meu Crisma é fazer memória do dia em que o Espírito Santo desceu sobre mim, tal como desceu sobre os apóstolos no Pentecostes. Na confissão (ontem, para fazer o "pleno sacramental" tambem me confessei) os nossos pecados são perdoados.

Mas para além dos Seus sacramentos deixou-nos uma companhia humana, onde o Seu rosto é visivel. Antes demais, torna-se presente nas famílias cristãs. Ontem ao ver a minha familia reunida para testemunhar a comunhão de um dos mais pequenos, relembreu a gaça que é ter uma família onde a presença de Cristo é visível.

Mas para além da família deixou-nos toda a Igreja. E através das várias gerações de cristãos, Cristo torna-se presente no quotidiano. Dava-me ontem conta, com comoção, como Deus me usou para preparar alguns miudos para o Crisma. Mas isto só é possível por causa da catequista que me preparou a mim. Por isso, de um modo estranho, o Infinito vai-se revelando através de criaturas finitas.

Agradeço muito a Deus pelo dia de ontem. Não que Ele se tenha revelado de maneira mais clara. Ele revela-se todos os dias de maneira clara. Mas ontem, atravé da graça dos Sacramentos e do testunho da Igreja, aconteceu-me o mesmo que a Saulo: os meus olhos abriram-se e eu Vi o Senhor.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Obama e Lincoln versão TVI

Hoje, no jornal da hora de almoço da TVI, um jornalista falava da festa de Obama ontem frente ao memorial de Lincoln.

Depois de alguns minutos apolegéticos sobre Barack Obama, a senhora jornalista acaba a peça dizendo que o presidente eleito escolheu o memorial de Lincoln porque este tinha unificado o país e dado a liberdade aos escravos.

Ora, por muito que a senhora goste de Obama, por muito que ela ache que este vai unificar o país, dizer que e Lincoln unificou a América é um disparate. Não só não unificou, como a sua candidatura fez afastar três estados da União e a sua eleição levou à Guerra da Secessão.

Estes factos não diminuem a grandeza de Abraham Lincoln. Os confederados começaram a guerra não porque tinham um motivo justo contra Lincoln, mas porque queriam manter os escravos. Por isso, ainda bem que foi ele eleito.

Eu não sei o que levou a jornalista a dizer tal disparate. Pode ter sido uma intrepertação livre da história para enaltecer Obama, pode ser simplesmente falta de conhecimento. Contudo, exige-se de um jornalista um pouco mais de atenção com o que diz.

Entrevista a Alice Vieira, Publico 19/01/09

Esta é a segunda greve de professores, este ano lectivo. Em que é que estas acções influenciam a qualidade da escola pública?
Os professores têm um calão muito próprio e gostava que um professor e a senhora ministra da Educação se sentassem e me explicassem o que é que é a avaliação? O que é que os professores têm que fazer? Para eu perceber! Os professores dizem que têm muitas fichas para preencher. Que tipo de fichas? O que é que a ministra quer fazer com aquilo?

Sente que a opinião pública tem as mesmas dificuldades em compreender o que se passa?
A maior parte não compreende e os professores queixam-se disso mesmo. Eu não quero acreditar que o que se passa é como aquela anedota, em que “todos vão com o passo errado e só o meu filho é que vai no passo certo”. O descontentamento é geral e quando 140 mil professores vêm para a rua, é óbvio que devem ter razão, mas não têm toda. A ideia que tenho, desde o princípio é de que a ministra tem razão em querer que os professores sejam avaliados, mas ela não sabe transmitir o que quer.

Isso reflecte-se no modo como as negociações têm sido conduzidas?
Sim, é visível nos vai-e-vem. Agora avalia-se assim e depois já é de outra maneira... As pessoas não sabem muito bem o que é ou não é. A ideia que passa é que os professores não querem trabalhar, que não querem ser avaliados e é fácil veicular essa ideia porque os professores são um grupo complicado.

Porquê?
Porque chegam a uma certa altura da carreira, têm os seus direitos adquiridos e é mais difícil aceitar outras coisas. Chega-se a uma altura em que as pessoas estão cansadas.

Sente isso nas escolas aonde vai?
A primeira coisa que ouço dizer é: “Estou cansada”, “vou-me reformar”, “estou farta disto”, “não me pagam para isto”... É só o que eu ouço.

Mas sempre ouviu esses lamentos ou agudizaram-se nos últimos anos?
Há 30 anos que vou às escolas e ouço-o agora. As leis são iguais para todos, mas há escolas onde dá gosto ver o trabalho que os professores fazem, que estão motivados e a ministra é a mesma! Não é a totalidade das escolas, mas sobretudo nas mais afastadas, nas do interior, encontro gente motivada e a fazer bons trabalhos. Essas escolas nem vêm no ranking das melhores. Também vou a privadas, ligadas à Igreja Católica, às vezes converso com professoras minhas amigas e conto-lhes: “Os alunos entram em fila, ou levantam-se quando eu entro, não fazem barulho...”. E respondem-me: “Está bem, mas isso é nessas escolas”. E eu pergunto: “Mas se está bem para essas escolas, porque é que não está para as outras?!”

A escola pública está a perder qualidade?
Há um desinteresse, um cansaço e depois há o problema da formação. Eu não quero generalizar, mas esta gente mais nova... Qual é a preparação que tem? Converso com professores e é um susto, desde a língua portuguesa tratada de uma maneira desgraçada, até ao desconhecimento de autores que deviam ter a obrigação de conhecer... Sabem muito bem o eduquês, mas passar além disso, é difícil. Muitos professores com que lido têm uma formação muito, muito, muito deficiente. Eles fazem com cada erro, que eu fico doida! E não só falam mal como se queixam diante dos miúdos. Podem dizer mal entre eles, mas não diante dos alunos, que depois reproduzem e a balda vai ser completa. A responsabilização dos professores é fraca, eles não são muito seguros e os alunos sentem que os professores não são seguros.

E por isso há atitudes de indisciplina e de violência?
Por exemplo, as manifestações dos miúdos também me perturbam um bocadinho, porque eles não sabem o que andam ali a fazer. Os miúdos devem aprender a falar bem, para saber reclamar, reivindicar, é uma questão de educação.

Mas nesse caso a culpa não é da escola, pois não?
Também é. Os professores queixam-se muito que têm de ser pai, mãe, assistente social, educadores... Pois têm! Porque a vida dos miúdos é na escola. Em casa não lhes dão as mínimas noções de educação, o simples “obrigada, se faz favor, desculpe”. Quando os alunos vêem os professores na rua, a berrar e a gritar, o que é que eles pensam? Os alunos manifestam-se para exigir melhor ensino? Não. Não os vejo preocupados porque os professores os ensinam mal.

Com alunos e professores na rua, o ano lectivo está perdido?
Não me parece que esteja perdido, se houver bom senso. Não se pode estar a brincar. As pessoas não entendem muito bem que o maior investimento que podem fazer é na educação. Se não tivermos gente educada, a saber, capaz, o que é que vai ser de nós? Estamos a fazer uma geração que não se interessa, não sabe nada, mas berra e grita. E isso perturba-me.

Volto a perguntar, a educação está a perder qualidade?
Eu comecei a ir às escolas há 30 anos, para apresentar o meu primeiro livro “Rosa, minha irmã Rosa” e ía falar com os alunos de 3.º e 4.º anos. Agora vou, exactamente com o mesmo livro falar a alunos dos 7.º e 8.º anos. Alguma coisa está mal. É assustador! Outra coisa assustadora é a utilização da Internet.

Não concorda com o acesso dos mais novos às novas tecnologias?
Estamos a queimar etapas, a atirar computadores para os colos dos miúdos quando não sabem ler nem escrever. Só devia chegar quando tivessem o domínio da língua e da escrita.

E os mais velhos?
Os mais velhos, não sabem utilizar a Internet, não sabem pesquisar, eles clicam, copiam e assinam por baixo. Eu chego a uma escola, vou ver e fizeram 50 trabalhos sobre um livro meu, todos iguais, com os mesmos erros e tudo, porque descarregam da Internet. Pergunto aos professores e respondem-me: “Mas eles tiveram tanto trabalho a procurar...” O professor tem que ensinar a pesquisar. Às vezes, estou a falar com os alunos e tenho a sensação nítida de que não estão a perceber nada do que eu estou a dizer.

Essa sensação é generalizada?
No geral, as crianças têm muitas, muitas dificuldades. E os professores, logo à partida, têm medo que os alunos se cansem e nem tentam! “O quê? Dar isso? Eles não gostam, cansam-se”. Há um medo de cansar os meninos. Desde 1974 que os alunos têm sido muito cobaias da educação. E os professores e os alunos não sabem muito bem o que é que andam a fazer... Aconteceu uma coisa terrível é que tudo tem que ser divertido. Há duas palavras que me põem fora de mim: moderno e lúdico! Tudo tem que ser lúdico, tem de ser divertido, nada pode dar trabalho. Não pode ser!

É preciso mudar a mensagem?
Quando vou às escolas esforço-me imenso por transmitir aos alunos que as coisas dão trabalho. E eles olham para mim como se fosse uma coisa terrível. Há muitas maneiras de se abordar as coisas, mas se os próprios professores passam a mensagem de não querer ter trabalho... Quando vou ao estrangeiro, vejo os professores e penso “se fosse em Portugal, não era assim”. Eles fazem o que for preciso fazer. Cá dizem que não é da sua competência... Isso é complicado.

Disse que as escolas do interior são diferentes das de Lisboa. Essas diferenças não se devem aos públicos que cada escola acolhe?
Sim, os miúdos de Lisboa têm mais solicitações, ao passo que para os de Trás-os-Montes, a ida de um escritor à escola é uma festa! Em Lisboa já não há lisboetas, há miúdos de todas as terras, de todos os países... E porque é que os miúdos da Europa de Leste se destacam nas escolas? Porque vêm de culturas de trabalho e, desde cedo, ouvem dizer que têm quee trabalhar. Com a democracia, as portas abriram-se, a escola deixou de ser de elite e estão todos na escola. Ainda bem! Mas os professores não estavam preparados para isso e admito que é difícil.

Falta-lhes formação?
Eu gostava de saber onde é que os professores são formados! Mas tendo alunos tão diferentes é necessário fazer formação. Porque, coitados dos professores, são deitados às feras! Como se chega aos alunos? Muitas vezes, olho para eles e vejo que não estão a ouvir nada. E eu apanho o melhor da escola, a parte boa, não tenho um programa para dar. Agora, quem está todos os dias na escola, compreendo que seja um stress terrível. A educação é daquelas matérias em que, se calhar, são precisas medidas impopulares, mas necessárias. Na educação nunca se fez um salto, que é necessário, nunca houve um ministro de quem se diga “fez”.

É precisa mais disciplina?
É preciso mais autoridade, o professor não pode fazer nada, não tem autoridade nenhuma. A solução passa por mais interesse e mais disciplina. O gosto pelo que se faz. E o professor tem que sentir esse gosto e passar aos miúdos. A profissão é de risco, de missionário e não de funcionário público na acepção pejurativa da palavra. Não é uma profissão como as outras e não é seguramente a de preencher impressos...

Como é exigido na avaliação?
Voltamos à avaliação! Ela é necessária, todos nós devemos ser avaliados, mas não pelo parceiro do lado ou pelo filho do patrão! Não faço ideia de como é que se avalia, mas na educação existe gente competente, que estudou, e devia ser chamada para dizer como avaliar. Não concordo que sejam avaliados entre eles. Não se pode ser irredutível, quer dum lado [professores] quer do outro [ministério]. As manifestações, no momento a que se chegou, não levam a nada, já vimos que agita, mas não levam a nada.

Parece-lhe que o conflito entre ministério e professores não tem fim à vista?
Os professores estão cansados, o que também é mau, porque aceitar uma situação só porque já se está cansado não é bom. Tem de haver uma solução, senão o ano lectivo perde-se e o culpado não será só um.