quinta-feira, julho 10, 2008

Nelson


O Almirante Lorde Nelson.
Abbott - National Portrait Gallery

Nelson

João César das Neves
Destak 10.07.2008


Portugal está em crise. Porquê? Como saímos disto? Uma frase clássica ajuda a encontrar a resposta. No dia 21 de Outubro de 1805 o vice-almirante Horatio Nelson, poucos minutos antes da histórica batalha naval de Trafalgar, enviou um sinal a toda a frota britânica: «A Inglaterra espera que cada homem cumpra o seu dever.»A razão por que estamos nestas dificuldades é que nem todos cumprem o seu dever. A crise nasce daquelas situações em que o Governo não governa, os trabalhadores não trabalham, os patrões não investem, os professores não ensinam, os médicos não curam, os polícias não protegem, os cidadãos não votam, os contribuintes não pagam. Os povos, como as pessoas, têm épocas de dedicação e entrega e outras de egoísmo e mesquinhez. Nos períodos de guerra e dificuldades, a sociedade inteira vive extremos de sacrifício para defender a integridade nacional. Mas em momentos de decadência, a comunidade cai na modorra e na esclerose corporativa, onde o bem comum se perde em reivindicações de grupos. Após 1974, Portugal viveu duas décadas de intenso compromisso comunitário. Primeiro para construir a democracia, depois para vencer o desafio europeu, a generalidade dos cidadãos suportou sacrifícios e fez esforços para melhorar o estado geral. Depois, como seria de esperar, sobreveio a atitude interesseira, invejosa, fragmentária e abandon ou-se o saudável clima de esforço comum. Hoje, em vez de se ouvir que beneficiando o todo cada um ganha, afirma-se que favorecer-se a si próprio dá vantagens à comunidade. Esta inversão faz toda a diferença.

quarta-feira, julho 09, 2008

Cristo, Sumo-Sacerdote

Vi hoje a notícia de que a Igreja Anglicana decidiu permitir às mulheres receber a ordenação episcopal, depois de ter admitido, em 1992, as mulheres ao sacerdócio.

O Vaticano já veio lamentar esta decisão, que vêm abrir ainda mais a ferida entre a Igreja Católica e a Igreja Anglicana.

Obviamente não se fizera esperar as criticas à posição da Igreja, com acusações de descrimização e de machismo. De facto o mundo moderno tem alguma dificuldade em perceber as posições da Igreja. Mas também, diga-se, não demonstra grande interesse em perceber. Limita-se a criticar, sem perguntar ou estudar os assuntos.

Mas voltando à questão da ordenação das mulheres. Esta é uma questão relativamente recente. Ao contrário do celibato, só se começou a falar em mulheres "sacerdotes" no século XX. Por isso ainda não existe uma doutrina clara sobre um assunto. Existem várias razões para o sacerdócio ser exclusivamente masculino, mas nenhuma delas foi aprofundada.

Existem duas razões mais fortes. A primeira é de que Cristo escolheu para receber o sacramento da Ordem, durante a última ceia, doze homens. Apesar da muitas mulheres que o seguiram, apesar de sua Santa Mãe (co-redentora da humanidade), Jesus ceou apenas com os doze.

Muitos dirão, sem saber do que falam, que naquela altura a sociedade era profundamente machista e portanto era impensável que Jesus ordenasse mulheres. Mas na maior parte das religiões já existiam sacerdotisas e, nalguns cultos como o de Vesta, eram exclusivos das mulheres.

Por outro lado não seria seguramente um preconceito que impediria Aquele que se sentou à mesa com pecadores e prostitutas e que chamou para junto de si, como seus apóstolos, publicanos e pescadores de fazer aquilo que bem entendesse.

Outra razão, ainda mais forte, é total identificação do sacerdote com Cristo na Eucaristia. Na consagração o padre não age em seu nome, mas "age na pessoa de Cristo Cabeça e em nome da Igreja" (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 278). E Cristo é totalmente Deus e totalmente Homem.

Estas são duas das razões pelas quais o sacerdócio é exclusivamente masculino. A Igreja reconhece a igual dignidade dos sexos, mas também reconhece as suas diferenças e a especifidades de cada um. A igualdade não é tratar todos da mesma maneira, mas cada um conforme a sua natureza.

SEMPER FIDELIS!

Cardeal Saraiva Martins

«O Cardeal José Saraiva Martins, de 76 anos, deixou de ser o prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, por ter atingido o limite de idade estabelecido pelo Direito Canónico (75 anos). A notícia é publicada esta Quarta-feira pela sala de imprensa da Santa Sé.

Bento XVI aceitou a renúncia do Cardeal português, o único na Cúria Romana, e nomeou para o seu cargo o Arcebispo italiano Angelo Amato, até agora secretário da Congregação para a Doutrina da Fé e um dos mais próximos colaboradores do actual Papa nos últimos anos.


Em declarações à Agência ECCLESIA, D. José Saraiva Martins mostra-se “profundamente grato” pelo trabalho que desempenhou na Congregação para as Causas dos Santos (CCS) ao longo da última década, que considera “um dom de Deus”.


“Foram anos muito belos, que me permitiram conhecer melhor a Igreja, o coração da Igreja, que é a santidade”, refere, assegurando: “Sinto-me feliz, muito feliz, pelo que fiz durante estes dez anos”.


Entre os muitos processos que passaram pelas suas mãos, o Cardeal português destaca a “oportunidade de contribuir para a elevação às honras dos altares” de muitos “membros ilustríssimos da Igreja”, destacando as beatificações dos Papas Pio IX e João XXIII, do Padre Pio, de Madre Teresa de Calcutá e dos Pastorinhos de Fátima, Francisco e Jacinta.


“São figuras extraordinárias que me ensinaram muito e eu sinto-me muito honrado, muito feliz por ter contribuído de maneira directa para que estas figuras de Santos fossem realmente postos como modelo de santidade para todos os filhos da Igreja”, afirma.


Na hora da partida, D. José Saraiva Martins diz que “a minha felicidade aumenta ainda mais quando penso que foi na minha prefeitura que foi retomada a causa do Beato Nuno Álvares Pereira, que praticamente está pronta para a Canonização”.


“Foi um modo muito bonito de acabar a minha prefeitura na Congregação”, assinala.


O Cardeal português era prefeito da Congregação para a Causa dos Santos desde 30 de Maio de 1998, tendo imprimido um grande dinamismo no trabalho deste dicastério da Cúria Romana. Foi um dos homens de confiança de João Paulo II, o Papa que mais fiéis beatificou e canonizou na história da Igreja Católica.


“João Paulo II dizia-me que a Congregação para as Causas dos Santos era a mais importante da Igreja, porque trata daquilo que é mais importante mesmo, mesmo na Igreja de Cristo, porque, dizia ele, se a Igreja não fosse santa não teria razão de existir”, lembra D. José Saraiva Martins, para quem “a santidade é sempre contagiosa”.


“Estes dez anos ensinaram-me o que é realmente a Igreja e o que devemos tender na Igreja, à santidade, tender à plenitude da humanidade”, complementa.


O Cardeal Saraiva Martins lembra que “deveria ter ido para a reforma já há quase dois anos (completou 75 anos em Janeiro de 2007, ndr), mas o Santo Padre pediu-me para ficar ainda mais tempo e ao Papa obedece-se sempre”, justifica.


Apesar da sua renúncia ao cargo de prefeito da CCS, D. José Saraiva Martins permanecerá em Roma, pois desempenha ainda cargos na Cúria Romana como membro das Congregações para os Bispos e para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, bem como do Conselho Pontifício para a Pastoral da Saúde, o Conselho Especial para a Europa da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos e a Comissão Pontifícia para o Estado da Cidade do Vaticano.


“Vou trabalhar com o mesmo entusiasmo”, assegura, perspectivando que, afinal, “o trabalho não vai diminuir, pelo contrário, até vai aumentar”, frisando que irá continuar “em plena actividade”.


Em relação às causas de beatificação e canonização que não acompanha até ao fim – nas quais se destacam as de João Paulo II e da Irmã Lúcia, Vidente de Fátima – o Cardeal português diz esse que é um facto “normal”, destacando que as causas estão muito bem encaminhadas e continuarão o seu curso, “sem dúvida”, com o novo prefeito, o Arcebispo Angelo Amato.


D. José Saraiva Martins considera ainda que o Arcebispo italiano, de 70 anos, irá seguir uma linha de “continuidade” no trabalho à frente da Congregação para as Causas dos Santos.»


Comoveu-me ler as declarações do Cardeal Saraiva Martins. A sua fidelidade ao Papa e à Santa Igreja dão testemunho de uma entrega simples, mas aos mesmo tempo total, a Cristo. Que o seu exemplo esteja sempre diante de nós, para recordarmos sempre a vocação a que fomos chamados pelo baptismo, a santidade.

SEMPER FIDELIS!

terça-feira, julho 08, 2008

Mistério do Pórtico da Segunda Virtude (Charles Péguy)

«Porque há lugares, meu Deus, que têm de ser mantidos. / E é preciso que tudo isto continue. / Quando já não for como agora. / Mas melhor. / É preciso que a vida do campo continue. / E a vinha e o trigo e a ceifa e a vindima. [...] É preciso que a cristandade continue. / A Igreja militante. / E para isso é preciso que haja cristãos. / Sempre.»

Oferecimento (Charles Péguy)

Se necessitas de virgens, Senhor,
se necessitas de valentes sob o teu estandarte
aí estão Clara, Teresa, Domingos, Francisco, Inácio…,
aí estão Lourenço, Cecília…

Mas se, por acaso, alguma vez precisares de um preguiçoso
e de um medíocre, de um ou outro ignorante, de um orgulhoso,
de um cobarde, de um ingrato e de um impuro,
de um homem cujo coração esteve fechado e cujo rosto foi duro…,
aqui estou eu.

Quando te faltarem os outros, a mim sempre me terás.

sexta-feira, julho 04, 2008

Temos Santo!




O Papa Bento XVI promulgou ontem dois decretos que reconhecem o milagre e as virtudes heróicas do Santo Condestável.

Assim sendo está concluido o processo de canonização do Beato Nuno de Santa Maria, faltando apenas que a Congregação para a Causa dos Santos determine quando será a cerimónia (que, segundo o que tem sido hábito no pontifica do Papa Bento XVI, deverá ser celebrada em Portugal pelo prefeito desta congregação, o Cardeal Dom José Saraiva Martins).

Agradecemos ao Senhor por ter enviado este milagre, tornando assim este grande portugês em exemplo para todo o povo cristão.

Rogai por nós bem aventurado Nuno,
para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

quinta-feira, julho 03, 2008

Casamento e afins...

A entrevista de Manuela Ferreira Leite relançou, pela milionésima vez, a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Aliás, ao dizer que se podia chamar outra coisa, mas não casamento, a líder do PSD lançou duas questões diferentes:

- o casamento entre pessoas do mesmo sexo

- um reconhecimento jurídico da união entre pessoas do mesmo sexo, equiparada ao casamento.

São duas questões diferentes, que merecem respostas diferentes.

No primeiro caso, a questão é clara como a água. O casamento é um instituto milenar, que todos os direitos reconheçam e valorizam, em maior ou menor grau. Desde sempre que o poder politico viu a necessidade de proteger a união estável do homem e da mulher, que permitia a criação de uma nova família, base da sociedade humana.

Por isso é da natureza do matrimónio ser entre pessoas de sexo diferente. Falar de casamento entre pessoas do mesmo sexo é o mesmo que falar do direito do ladrão à legítima defesa.

A questão de uma forma de união entre pessoas do mesmo sexo com direitos iguais aos do casamento é diferente. Aqui trata-se de perceber se existe uma relação que o Estado deve tutelar e proteger.

Ora, sendo que de uma união homossexual não nasce família, então o Estado não tem nada que se imiscuir nos seus assuntos privados, como se eles se amam ao não.

Ao Estado não interessa se um homem e uma mulher que se querem casar estão apaixonados, mas simplesmente se legalmente o podem fazer e se o querem fazer. Os afectos não tem protecção jurídica.

Por isso, tratemos de maneira igual o que é igual e de maneira desigual o que é desigual, porque sem este corolário do Direito nunca atingiremos a Igualdade.

quarta-feira, julho 02, 2008

Agora é a vez dos polacos

O presidente polaco afirmou hoje que não irá rectificar o Tratado de Lisboa.

Já não é o primeiro polaco a salvar a Europa nos últimos anos...

segunda-feira, junho 30, 2008

Irlanda!

Confesso que nunca fui à Irlanda. Nem nunca sequer conheci um irlandês (quando muito, descendentes de irlandeses) mas é me dificil não amar a Irlanda.

É dificil não amar aquele que é um dos último países cristãos da Europa. É dificil não amar um povo que resistiu e lutou durante 800 anos pela sua liberdade. É sobretudo dificil não nos comover-mos diante de um povo que canta como cantam os irlandeses.

É facil imaginar a verdejante Irlanda ao ouvir o canto dos irlandeses, que fala sobretudo da sua terra e da sua luta pela liberdade.

Deixo aqui mais um canto irlandês.



Only our rivers run free

When apples still grow in November,
when blossoms still grow from each tree,
when leaves are still green in December,
it’s then that our land will be free.
I wander the hills and the valleys,
and still through my sorrow I see
a land that has never know freedom,
and only her rivers run free.

I drink to the death of her manhood,
those men who’d rather have died
than to live in the cold chains of bondage
to bring back their rights were denied.
Oh where are you now that we need you?
What burns where the flame used to be?
Are you gone like the snow of last winter?
And will only our rivers run free?

How sweet is life, but we’re crying.
How mellow the wine, but we’re dry.
How fragrant the rose, but it’s dying.
How gentle the wind, but it sighs.
What good is in youth when it’s ageing?
What joy is in eyes that can’t see?
When there’s sorrow in sunshine and flowers,
and still only our rivers run free.

domingo, junho 29, 2008

"Tu es Petrus"







«Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a Minha Igreja, e as forças do Inferno não levarão a melhor contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na Terra ficará ligado nos Céus, e tudo o que desligares na Terra ficará desligado nos Céus».


Hoje é dia de São Pedro, ou seja, é o dia do Papa. Pois a frase "Tu és Pedro" atravessa a história e é hoje dita a Sua Santidade o Papa Bento XVI.

Pois de facto ele é Pedro, pedra sobre qual está erguida a Igreja de Cristo. Hoje faz cada vez mais sentido a frase das escrituras "A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular".

Que Deus Nosso Pai guarde e proteja o Santo Padre e lhe dê forças para guiar o povo Cristão ao seu destino.

SEMPER FIDELIS!

Verdade sobre a Inquisição








No meio de umas pesquisas no Google, desencantei este vídeos do YouTube.

Vale muito a pena vê-los até ao fim, pois reproduzem um juízo claro sobre a Inquisição em Portugal, afastando-nos da versão marxista que nos é transmitida na Escola.

sábado, junho 28, 2008

O VEÍCULO DA VERDADE

Hoje postamos o manifesto que o 24 XPTO (ver: http://www.24xpto.net) proporá amanhã à comunicação social, numa das suas viagens missionárias.

No rebuliço da vida quotidiana de cada um de nós, o encontro com Cristo decidiu todos os âmbitos da nossa existência: «Não sou eu quem vive, mas é Cristo que vive em Mim». Nestas jornadas, à imitação de São Paulo, o que nos move é o embate com uma realidade humana que explica toda a realidade à luz de um novo critério de Bem, de Justiça e de Verdade: Jesus.

Assim, reconhecemos que os meios de comunicação social são fundamentais para a sociedade actual: a realidade torna-se “vizinha” de todos e o mundo está ao virar da esquina.
Como critério do nosso olhar sobre a realidade, partimos de três premissas:

Realismo
Olhar para o objecto do vosso trabalho com amor e dedicação, respeitando o critério do Bem e do Mal, que está inscrito no coração de todos os homens.

Razoabilidade
Entendemos que o respeito pela humanidade e pela existência de todos os homens merece uma atenção, uma tensão para evitar todos os tipos de violência, moral ou psicológica, para que a realidade seja veiculada através da beleza que atrai os homens.

Moralidade
Tudo o que nos atrai na realidade, tem um fim, concreto e exacto. É o respeito pelo destino das coisas e, sobretudo, das pessoas que constitui a nossa última premissa: amar mais a verdade do que a ideia que poderemos ter sobre ela. É um desafio. Mas é um desafio que traz um gosto novo à relação com a realidade.

Para terminar, propomos uma pequena reflexão sobre alguns dos pontos que defendemos no ordenamento social.

Libertas ecclesiae – uma sociedade que respeita a liberdade de um fenómeno tão sui generis como a Igreja é por si mesmo tolerante com qualquer outra agregação humana autêntica. O reconhecimento do papel público da fé e do contributo que esta pode dar ao caminho dos homens é, portanto, garantia da liberdade para todos, não só para os cristãos.

O bem comum - Uma política que se concebe como serviço ao povo tem em consideração a defesa das experiências em que o desejo do homem e a sua responsabilidade – através da construção de obras sociais e económicas, segundo o princípio da subsidiariedade – podem crescer em função do bem comum.
Interessa promover uma política e um ordenamento do Estado que favoreçam a “liberdade” e o “bem”, e que possam sustentar assim a esperança do futuro, defendendo a vida, a família, a liberdade de educar e de realizar obras que encarnem o desejo do homem.

As Férias segundo Bento XVI (Joseph Ratzinger)

Ontém, entre amigos, falávamos do tempo das férias que para uns já começou e para outros está prestes a começar: das dificuldades próprias deste tempo que é o "tempo da Liberdade por excelência", do grande desafio de o bem aproveitar e de alguns critérios para o fazer.
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Encontrei este texto do Santo Padre (via PorCausadEle) que é certamente de grande ajuda para todos nós.
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Poder descansar (*)
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Os discípulos colocaram a Jesus o problema do stress e do descanso. Os discípulos regressavam da primeira missão, muito entusiasmados com a experiência e com os resultados obtidos. Não paravam de falar sobre os êxitos conseguidos. Com efeito, o movimento era tanto que nem tinham tempo para comer, com muitas pessoas à sua volta. Talvez esperassem ouvir algum elogio por tanto zelo apostólico. Mas Jesus, em vez disso, convida-os a um lugar deserto, para estarem a sós e descansarem um pouco. Creio que nos faz bem observar neste acontecimento a humanidade de Jesus. A sua acção não dizia só palavras de grandeza sublime, nem se afadigava ininterruptamente por atender todos os que vinham ao seu encontro. Consigo imaginar o seu rosto ao pronunciar estas palavras. Enquanto os apóstolos se esforçavam cheios de coragem e importância que até se esqueciam de comer, Jesus tira-os das nuvens. Venham descansar!
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Sente-se um humor silencioso, uma ironia amigável, com que Jesus os traz para terra firme. Justamente nesta humanidade de Jesus torna-se visível a divindade, torna-se perceptível como Deus é. A agitação de qualquer espécie, mesmo a agitação religiosa não condiz com a visão do homem do Novo Testamento. Sempre que pensamos que somos insubstituíveis; sempre que pensamos que o mundo e a Igreja dependem do nosso fazer, sobrestimamo-nos. Ser capaz de parar é um acto de autêntica humildade e de honradez criativa; reconhecer os nossos limites; dar espaço para respirar e para descansar como é próprio da criatura humana.
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Não desejo tecer louvores à preguiça, mas contribuir para a revisão do catálogo de virtudes, tal como se desenvolveu no mundo ocidental, onde trabalhar parece ser a única atitude digna. Olhar, contemplar, o recolhimento, o silêncio parecem inadmissíveis, ou pelo menos precisam de uma explicação. Assim se atrofiam algumas faculdades essenciais do ser humano.
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O nosso frenesim à volta dos tempos livres, mostra que é assim. Muitas vezes isso significa apenas uma mudança de palco. Muitos não se sentiriam bem se não se envolvessem de novo num ambiente massificado e agitado, do qual, supostamente, desejavam fugir. Seria bom para nós, que continuamente vivemos num mundo artificial fabricado por nós, deixar tudo isso e procurarmos o contacto com a natureza em estado puro.
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Desejaria mencionar um pequeno acontecimento que João Paulo II contou durante o retiro que pregou para Paulo VI, quando ainda era Cardeal. Falou duma conversa que teve com um cientista, um extraordinário investigador e um excelente homem, que lhe dizia: "Do ponto de vista da ciência, sou um ateu...". Mas o mesmo homem escrevia-lhe depois: "Cada vez que me encontro com a majestade da natureza, com as montanhas, sinto que Ele existe".
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Voltamos a afirmar que no mundo artificial fabricado por nós, Deus não aparece. Por isso, temos necessidade de sair da nossa agitação e procurar o ar da criação, para O podermos contactar e nos encontrarmos a nós mesmos.
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(*) Card. J. Ratzinger "Esplendor da Glória de Deus" Editorial Franciscana, 2007, pág. 161.

sexta-feira, junho 27, 2008

"Zé e a Ana na nova lei do divórcio" Isilda Pegado, Público, 26/06/08

Na lei actual, o património divide-se em partes iguais. Com a nova lei, a Ana tem direito a 1/6 do património e o Zé a 5/6O Zé e Ana estão casados há 15 anos e têm dois filhos, ele é engenheiro e ela secretária.

Ele, sabe-se lá porquê, ultimamente chega a casa bebe uns uísques e... bate na Ana. À terceira vez, a Ana apresentou queixa na GNR, para "ver se ele tem respeito a alguém". A Ana gosta do Zé e não se quer divorciar, apenas pediu ajuda para "esta fase má" do casamento.

Hoje, com a lei actual, a Ana não tem medo de apresentar queixa porque o casamento não é posto em causa por esse facto. Amanhã, com a nova lei do divórcio, o Zé com cópia da queixa apresentada na GNR pode divorciar--se (art. 1.781.º, al. d), nova versão). O Zé usa a sua própria violência para pôr fim ao casamento.Acontece que a Ana ganha mil euros por mês, mas o marido aufere 5000 euros por mês. Sempre foi assim. Ele ganhava cinco vezes mais do que ela. É certo que ela orientava a casa, mas ele também ajudava nas tarefas domésticas (como qualquer casal moderno...).

Hoje, com a lei vigente, o património que construíram (a casa onde vivem, o carro e os 80.000 euros de "pé-de--meia") é para dividir em partes iguais. A Ana fica com a casa e ele com o carro e o dinheiro. Amanhã, com a nova lei do divórcio, na partilha (art. 1.676.º, n.º 2, nova versão) a Ana tem direito a 1/6 do património e o Zé a 5/6. Contas feitas, a Ana para ficar com a casa terá de pedir ao Banco ?82.000 que dará de tornas ao Zé. Isto é, a Ana terá direito a 37.500 euros e o João a 187.500 (na divisão do património conjugal). Acontece ainda que, nos últimos três anos, o tio do Zé - o tio Arlindo - viveu com eles porque estava velho e não tinha filhos. Prevendo o seu fim fez um testamento ao Zé e à Ana deixando-lhes a casa na Nazaré e três pedaços de pinhal. O Zé e a Ana trataram de tudo e até registaram em seu nome as propriedades. Hoje, com o divórcio, o Zé e a Ana continuam a ser donos em partes iguais das propriedades. Amanhã, com a nova lei do divórcio, a Ana, que não quis divorciar-se, que foi vítima de violência do marido, tendo este obtido o divórcio, perde os bens que herdara do tio Arlindo (art. 1.791.º, nova versão) revertendo os mesmos, na totalidade, para o Zé.

Quando a Ana procurou alguém que lhe explicou o que se iria passar, disse em voz baixa (não vá alguém ouvir): "Afinal, a violência doméstica compensa. Ainda dizem eles para apresentar queixa. Estou cada vez mais sozinha".

quinta-feira, junho 26, 2008

Na ressaca do referendo na Irlanda



Irish soldier laddie.

'Twas a morning in July, I was walking to Tipperary
When I heard a battle cry from the mountains over head
As I looked up in the sky I saw an Irish soldier laddie
He looked at me right fearlessly and said:

Will ye stand in the band like a true Irish man
And go and fight the forces of the crown?
Will ye march with O'Neill to an Irish battle field?
For tonight we go to free old Wexford town!

Said I to that soldier boy,
"Won't you take me to your captain
T'would be my pride and joy for to march with you today
My young brother fell in Cork and my son at Innes Carthay!"
Unto the noble captain I did say:

I will stand in the band like a true Irish man
And go and fight the forces of the crown?
I will march with O'Neill to an Irish battle field?
For tonight we go to free old Wexford town!

As we marched back from the field in the shadow of the evening
With our banners flying low to the memory of our dead
We returned unto our homes but without my soldier laddie
Yet I never will forget those words he said:

Will ye stand in the band like a true Irish man
And go and fight the forces of the crown?
Will ye march with O'Neill to an Irish battle field?
For tonight we go to free old Wexford town!

A Europa contra os cidadãos!




Tendo feito terça-feira uma frequência de Direito da União Europeia, arrisco-me a dar um palpite sobre o Tratado Reformador, mais conhecido como Tratado de Lisboa ou então como o ponto alto da carreira do nosso Primeiro.

Perante a possibilidade de novo chumbo deste tratado nas urnas, como já acontecera com o "projecto do tratado de uma Constituição para a Europa", os governos da U.E. decidiram aprovar este tratado nos respectivos parlamentos. Muitos dos governos que o fizeram (ou ainda vão fizeram) fizeram-no quebrando promessas eleitorais (como por exemplo o nosso).
Só a Irlanda, onde a constituição foi um real garante do Estado de Direito, foi a referendo. Resultado, os irlandeses dizeram "Não" ao Tratado de Lisboa, como já haviam feito os franceses e os holandeses ao seu irmão mais velho.

O grande problema da U.E. é que a Europa dos cidadãos não se pode construir contra os mesmos. Quanto mais os governantes insistirem na integração europeia sem a legitimação do povo, mais o povo se há de afastar do ideal europeu.

Os actuais lideres das comunidades esqueceram-se da lição do seu fundador. "A Europa não será construída de um só golpe", dizia Schumann na sua célebre declaração de 9 de Maio de 1950. A integração é progressiva e paulatina, não se pode queimar etapas, ensinam todos aqueles que se dedicam ao Direito da U.E..

Se o povo não percebe a importância do Tratado Reformador, então que se explique ao povo. Se o povo não liga a U.E., então a União que pense onde está a falhar.

Obrigar os povos da Europa a caminhar para o federalismo, insistido na ideia da sua inevitabilidade, só contribuirá para um enfraquecimento cada vez maior da já pouca legitimidade dos órgãos da U.E.

90 anos de um grande Bispo.

O Bispo D. António Rodrigues completou 90 anos(24/06). Para assinalar a data, D. José Policarpo presidiu a uma missa co-celebrada por vários Bispos e dezenas de padres do Patriarcado de Lisboa.


O Papa enviou uma mensagem especial através do Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Tarcísio Bertone, na qual felicitou D. António Rodrigues pelos frutuosos anos de vida que Deus lhe concedeu e por nele ter esculpido os traços do bom pastor.

Na sua intervenção, no fim da missa, D. António Rodrigues agradeceu a Deus pelas oportunidades que teve ao longo da sua vida.

“Depois de formado em Direito fui aceite como padre – saudosos tempos que nunca me esquece. Já lá vão mais de 60 anos. Não posso dizer se não que recordo a promessa que fiz no dia em que fui ordenado como presbítero e depois como Bispo. Tudo isso passa hoje pelo meu espírito, acolhido em Deus e na Igreja minha Mãe, porque sou tão somente um servo inútil”, disse.

À saída, D. José Policarpo comentou a influência que D. António Rodrigues teve na vida dos católicos portugueses.

“O senhor D. António marcou uma geração. É hoje muito apreciado, mesmo por gente que já não é muito frequentadora da Igreja, mas que foram muito marcados pela sua inteligência e pela sua intervenção de trabalho. Se durante um tempo ele era muito admirado e temido hoje é muito estimado”, refere o Cardeal Patriarca.

D. António dos Reis Rodrigues foi referência em Portugal para várias gerações de católicos: antigo Bispo de Madarsuma foi auxiliar de dois Ordinários Castrenses, os Cardeais Patriarcas D. Manuel Cerejeira e D. António Ribeiro. Foi depois Bispo Auxiliar de três patriarcas. Foi ainda Secretário e Vice-Presidente da Conferência Episcopal.

Uma vida e missão aqui retratadas pelo padre Mário Rui, pároco da Igreja de São Nicolau, em Lisboa.

“O senhor D. António Reis Rodrigues é uma pessoa dotada de grande inteligência, com um pensamento coerente, um pensamento ricamente estruturado em que impressiona a vastidão do seu saber e a amplitude da sua cultura. O senhor D. António, como homem como padre, como Bispo, sempre manifestou uma firmeza de carácter e uma coragem lúcida tantas vezes postas à prova no exercício de funções. Sendo brilhante foi, ao mesmo tempo, discreto”, refere.

No dia 14 de Julho, na Universidade Católica, vão ser lançados cinco livros de D. António Reis Rodrigues sobre a Doutrina Social da igreja, dois dos quais inéditos. A apresentação vai estar a cargo do Reitor Braga da Cruz."

Não posso dizer que me lembre da acção pastoral do Senhor Dom António. Contudo, foi amigo do meu avô e da minha familia e guardo dele a ideia de um grande pastor.

Confiando no testemunho daqueles que com ele privarem, rezo ao Senhor para que nos envie tão grande pastores com o Senhor Dom António.

26 de Junho




Hoje é dia de São Josemaria Escrivá, fundador do Opus Dei.

Rezemos a este grande santo, que tão importante foi para a Igreja de Espanha e para o mundo, entregando-lhe sobretudo o Marcos e a Kate que hoje fazem anos.

Rogais por nós bem aventurado Josemaria,
Para que sejamos dignos das promessas de Cristo!

Regresso

Após algum tempo de inactividade, mesmo sabendo que a pausa em Agosto será de algum modo inevitável, retomamos agora este blog.

Peço desculpa pela falta.

Obrigado aos que regressarem!

quinta-feira, junho 19, 2008

Ratzinger e o Euro

Regularmente, cada quatro anos, o campeonato do mundo de futebol afirma-se como um acontecimento que reúne à sua volta centenas de milhões de pessoas. Dificilmente um outro fenómeno mundial consegue alcançar uma tão vasta influência. Isso mostra que este fenómeno toca algo constitutivo do ser humano, e leva-nos a perguntar pela razão da força que este desporto tem.

O pessimista dirá que acontece o mesmo que na antiga Roma. Os slogans das massas eram: panem et circenses, pão e circo. Pão e jogo seriam os valores duma sociedade decadente, que não conhece fins superiores. Mesmo que aceitemos esta informação, não seria de maneira nenhuma o suficiente.

Mais uma vez teria que se perguntar: Onde reside a fascinação deste jogo, que se apresenta com a mesma importância que o pão? Podíamos responder olhando novamente para Roma, dizendo que o grito pelo pão e pelo jogo mais não é que a expressão do desejo duma vida paradisíaca, uma vida de fartura sem esforço e da realização da liberdade. Na realidade, é o que se insinua com o jogo: uma actividade totalmente livre, sem o limite dos fins e da necessidade, e que, no entanto, mobiliza e satisfaz todas as energias do ser humano.

Nesta perspectiva, o jogo seria uma tentativa de regresso ao paraíso, a fuga da seriedade escravizante do dia-a-dia com a sua disciplina, para a seriedade livre, sem imposições, que, justamente por isso, se toma mais bela.

Nesse sentido, o jogo ultrapassa, em certo modo, a vida do dia-a-dia; mas tem também, sobretudo na criança, ainda um outro carácter. É exercício para a vida. Simboliza a própria vida e é dela uma antecipação descontraída.

Parece-me que a fascinação do futebol consiste, essencialmente, em que reúne em si estes dois aspectos de forma convincente. Primeiro, obriga o homem a dominar-se, de tal forma que, através do treino, ganha o domínio sobre si mesmo. Com o domínio supera-se e, superando-se, toma-se mais livre. Mas também lhe ensina a disciplina do conjunto: como jogo de equipa, obriga-o a subordinar o próprio ao todo. Une-os num objectivo comum. O sucesso ou o insucesso de um está ligado ao sucesso e ao insucesso do todo.

Fonte: "Esplendor da Glória de Deus", Cardeal Ratzinguer, Ed. Franciscana, 2007, pág. 187