Na Alemanha, um novo «think tank do Iluminismo» propõe guerra aberta a todas as religiões. Em Itália, um ateísta convicto acusou a Igreja católica de fraude junto do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos: segundo ele, Cristo nunca existiu. Até em Inglaterra, anfitriã de um Iluminismo razoável no século XVIII, as hostes se agitam. A dormente ‘National Secular Society’ anuncia que duplicou o número de sócios (para 7 mil) e promove entusiásticos comícios de propaganda contra a religião.
Numa sociedade livre, o ateísmo deve poder ser livremente expresso como filosofia particular. Entre outras vantagens, isso tornará mais claro que uma boa parte (embora não toda) do secularismo que é reivindicado para o Estado apenas exprime uma ideologia particular. Cabe aos ateus explicarem porque deveria a sua ideologia particular receber a chancela do Estado.
O principal apelo popular do ateísmo actual parece residir na sua alegação de que a fonte do ódio e da intolerância reside na religião — um ponto que tem sido repetido pelo reputado filósofo Elton John. Como explicar, nesse caso, que os dois grandes totalitarismos do século XX, o nacional-socialismo e o comunismo, tenham sido ateus? Como explicar que a União Soviética tenha sido o primeiro Estado a declarar o ateísmo como doutrina oficial?
No plano político, resta saber se o ateísmo está disposto a combater o fundamentalismo islâmico — a verdadeira ameaça actual à liberdade — ou se descobriu apenas outro pretexto (condenar todas as religiões) para não o enfrentar.
No plano filosófico, o ateísmo encerra dificuldades enormes — à luz da razão. Uma, crucial, reside na colossal ambição do racionalismo dogmático que subjaz ao ateísmo: a de que a razão pode fornecer pressupostos isentos de pressupostos. Mas a razão não consegue explicar porque existe algo em vez de nada. Em rigor, o ateísmo acredita que sabe, mas não sabe que acredita. Neste sentido, como escreveu o saudoso Raymond Aron, limita-se a ser o ópio dos intelectuais.
Joao Carlos Espada, Expresso

















